Loucura

Meu amigo André Kenji me mandou este texto do escritor inglês John Le Carré, onde ele fala sobre a crise Bush-Blair-Saddam. A tradução é da Clara Allain:

Loucura histórica toma conta dos EUA

JOHN LE CARRÉ

Os EUA entraram em um de seus períodos de loucura histórica,mas este é o pior da qual consigo me recordar -pior do que o macarthismo, pior do que a baía dos Porcos e, a longo prazo, potencialmente mais desastroso do que a Guerra do Vietnã. A reação a 11 de setembro supera qualquer coisa que
Osama poderia ter esperado, mesmo em seus sonhos mais maquiavélicos. Como nos tempos de McCarthy, os direitos e as liberdades dos cidadãos que fizeram dos EUA alvo da inveja do mundo estão sendo sistematicamente corroídos.
A perseguição movida contra estrangeiros residentes nos EUA continua, sem trégua. Homens “não-permanentes” de origem norte-coreana ou do Oriente Médio desaparecem, sendo mantidos detidos em segredo, com base em acusações secretas e em decisões secretas de juízes. Palestinos residentes nos EUA, que, antes de 11 de setembro, eram considerados apátridas e, portanto, não podiam ser deportados, estão sendo entregues a Israel para serem “reassentados” na faixa de Gaza e na Cisjordânia, lugares onde muitos deles nunca antes colocaram os pés.
Será que nós, aqui no Reino Unido, estamos jogando o mesmo jogo? Imagino que sim. Dentro de 30 anos seremos autorizados a saber. A combinação de mídia americana obediente e interesses das grandes empresas está mais uma vez fazendo com que uma discussão que deveria estar sendo travada em praça pública se restrinja às colunas mais “nobres” da imprensa da Costa Leste americana: procure lá pela página 27 do primeiro caderno, se for capaz de encontrar e compreendê-la.
Nenhum governo americano até hoje manteve seus planos e propósitos em segredo tão grande. Se os serviços de inteligência não souberem de nada, então será o segredo mais bem guardado de todos. Vale lembrar que são essas as mesmas organizações que nos brindaram com a maior falha da história dos serviços de informações: o 11 de setembro. A guerra iminente foi planejada anos antes de Osama
bin Laden dar seu golpe, mas foi Osama quem a tornou possível. Sem Osama, a junta Bush ainda estaria tentando explicar problemas complexos quanto o de como conseguiu ser eleita, em primeiro lugar; a Enron, o favorecimento desavergonhado que brinda àqueles que já são ricos demais e o descaso inconsequente com que trata os pobres do mundo, o ambientalismo e toda uma série de tratados internacionais unilateralmente rescindidos por ela. É possível que também estivesse tendo de nos explicar por que apóia o descaso com que Israel continua a tratar resoluções da ONU que lhe dizem respeito.
Mas Osama, de modo muito conveniente, varreu tudo isso para debaixo do tapete. Agora os seguidores de Bush estão na crista da onda. Segundo nos dizem, 88% dos americanos são favoráveis à guerra. O orçamento norte-americano da Defesa foi acrescido de mais US$ 60 bilhões, chegando a cerca de US$ 360 bilhões. Uma nova e magnífica geração de armas nucleares americanas se encontra em processo de produção, feita sob medida para responder com força igual às armas nucleares, químicas
e biológicas que estão nas mãos dos “Estados delinquentes”. Podemos todos respirar aliviados.
E os EUA não apenas estão decidindo de maneira unilateral quem pode ou não pode possuir tais armas. Também reservam para si o direito unilateral de posicionar suas próprias armas nucleares, sem pensar duas vezes, onde e quando consideram que seus interesses, amigos ou aliados estiverem
sendo ameaçados. Exatamente quem serão esses amigos e aliados nos próximos anos será, como sempre na política, um enigma. Você faz bons amigos e aliados, você os arma até os dentes. Um
dia eles deixam de ser seus amigos e aliados. Você os derruba com uma bomba nuclear.
Vale a pena lembrar por quantas longas horas e quão seriamente o gabinete americano analisou a opção de usar uma arma nuclear contra o Afeganistão, na esteira de 11 de setembro. Felizmente para todos nós, mas especialmente para os afegãos, cuja cumplicidade com o 11 de setembro foi muito
menor do que a dos paquistaneses, os EUA se contentaram em usar bombas “convencionais” de 25 mil toneladas, que, ao que consta, causam tantos danos quanto uma arma nuclear pequena, de qualquer maneira. Mas da próxima vez será para valer.
Exatamente que guerra 88% dos americanos pensam estar apoiando está bem menos claro. Uma guerra por quanto tempo? A que custo em termos de vidas americanas? A que custo para o bolso do contribuinte americano? A que custo -pois a maioria desses 88% de americanos é feita de pessoas
inteiramente decentes e humanas- em termos de vidas iraquianas? Hoje isso deve ser um segredo de Estado, mas a operação Tempestade no Deserto custou ao Iraque pelo menos duas vezes o número de vidas perdidas pelos EUA perderam em toda a Guerra do Vietnã.
Como Bush e sua junta conseguiram desviar a ira da América de Osama bin Laden para Saddam Hussein é um dos grandes truques mágicos de relações públicas da história. Mas conseguiram. Uma sondagem de opinião recente mostrou que, hoje, 1 em cada 2 americanos acredita que foi Saddam
o responsável pelo ataque ao World Trade Center. Mas o público americano não está apenas sendo enganado. Está sendo ameaçado, intimidado, amedrontado e mantido num estado permanente de ignorância e medo, com a consequente dependência de suas lideranças. Se tudo sair como querem
Bush e seus colegas conspiradores, a neurose cuidadosamente orquestrada deve conduzi-los à vitória sem surpresas na próxima eleição.
Quem não está do lado de Bush está contra ele. Pior ainda – veja seu discurso de 3 de janeiro -, está do lado do inimigo. É estranho, porque eu, por exemplo, estou inteiramente contra Bush, mas adoraria assistir à queda de Saddam – apenas não nos termos de Bush e pelos métodos dele. E tampouco sob uma bandeira de hipocrisia tão desavergonhada.
O colonialismo americano à velha moda está prestes a abrir suas asas de chumbo sobre todos nós. Mais “Americanos Tranquilos” [referência a “The Quiet American, livro de Graham Greene] estão se infiltrando em cidades insuspeitas do que no auge da Guerra Fria. O discurso religioso farisaico que vai enviar as tropas americanas à guerra é talvez o aspecto mais nauseante dessa surreal guerra que está por vir. Bush possui o monopólio sobre as revelações de Deus. E Deus tem opiniões políticas muito específicas. Deus escolheu a América para salvar o mundo de qualquer
maneira que agradar à América. Deus escolheu Israel para ser o foco da política norte-americana
para o Oriente Médio, e qualquer pessoa que queira contestar essa idéia é: a) anti-semita; b) antiamericana; c) favorável ao inimigo; e d) terrorista.
Deus também tem algumas conexões bem assustadoras. Na América, onde todos os homens são iguais a Seus olhos, mesmo que não o sejam aos olhos uns dos outros, a família Bush inclui um presidente, um ex-presidente, um ex-diretor da CIA, o governador da Flórida e o ex-governador do Texas. Bush pai tem algumas boas guerras a seu favor em sua folha de serviços, além de uma reputação merecida
por despejar a ira da América sobre Estados clientes desobedientes. Uma guerrinha que ele lançou pessoalmente, à mão, foi contra seu antigo colega da CIA, o panamenho Manuel Noriega, que lhe tinha prestado bons serviços durante a Guerra Fria, mas, quando esta terminou, acabou por querer ultrapassar seus limites devidos. Não dá para o poder se tornar muito mais nu e cru do que isso, e
os americanos estão cientes disso.
Quer algumas dicas? George W. Bush. 1978-84: alto executivo da Arbusto Energy/ Bush Exploration, empresa petrolífera. 1986-1990: executivo sênior da companhia petrolífera Harken. Dick Cheney. 1995-2000: executivo-chefe da companhia petrolífera Halliburton. Condoleezza Rice. 1991-2000: executiva sênior da companhia petrolífera Chevron, que batizou um petroleiro com o nome dela. E assim por diante. Mas nenhuma dessas associações casuais afeta a integridade da obra de Deus. Estamos falando de valores honestos. E sabemos onde seus filhos estudam.
Em 1993, quando o ex-presidente George Bush estava fazendo uma visita social ao sempre democrático reino do Kuait para receber seus agradecimentos por tê-lo libertado, alguém tentou matá-lo. A CIA acreditou que o “alguém” fosse Saddam Hussein. Isso explica o grito de Bush júnior: “Aquele homem tentou matar meu pai”. Mas não é nada pessoal – é guerra. Ainda é necessária. Ainda é o desígnio de Deus. Ainda se trata de levar liberdade e democracia ao povo iraquiano pobre e oprimido.
Para ser membro aceitável da equipe de Bush, parece que também é preciso acreditar no Bem Absoluto e no Mal Absoluto, e Bush, com muita ajuda de seus amigos, familiares e Deus, está lá para nos dizer qual é qual. Acho que talvez eu seja do Mal por ter escrito este texto, terei de checar.
O que Bush se recusa a nos dizer é a verdade sobre o porquê de estarmos indo à guerra. O que está em jogo não é um tal de “eixo do mal”, mas petróleo, dinheiro e vidas humanas. O azar de Saddam é que ele está sentado em cima do segundo maior campo de petróleo do mundo. O azar do vizinho Irã é possuir os maiores depósitos mundiais de gás natural. Bush quer os dois, e quem ajudá-lo a consegui-los vai receber uma fatia do bolo. Quem não ajudar não ganhará nada. Se Saddam não tivesse o petróleo, ele poderia torturar e matar seus próprios cidadãos à vontade. Outros líderes o fazem diariamente -pense na Arábia Saudita, no Paquistão, na Turquia, na Síria, no Egito-, mas esses são nossos amigos e aliados.
Na realidade, desconfio que Bagdá não ofereça nenhum perigo real e imediato a seus vizinhos, e nenhum mesmo aos EUA ou ao Reino Unido. As armas de destruição em massa de Saddam Hussein, se é que ele ainda as tem, serão café pequeno comparadas às coisas que Israel ou os EUA poderiam atirar contra ele com aviso prévio de apenas cinco minutos. O que está em jogo não é uma ameaça militar ou terrorista iminente, mas o imperativo econômico do crescimento dos EUA. O que está em jogo é a necessidade dos EUA de demonstrar sua hegemonia militar a todos nós -à Europa, à Rússia,
à China e até mesmo à pobre e louca Coréia do Norte, sem falar no Oriente Médio, para mostrar quem é que manda na América em casa e quem será mandado pela América fora de suas fronteiras.
A interpretação mais generosa que pode ser feita da parte que Tony Blair desempenha em tudo isto é que ele achou que, cavalgando o tigre, pudesse direcioná-lo. Não conseguiu. Em lugar disso, conferiu a ele uma legitimidade falsa e uma voz macia. Hoje, temo que o mesmo tigre o tenha encurralado num canto do qual ele não consegue mais sair. Ironicamente, o próprio George W. pode estar se sentindo
um pouco assim, também. No Reino Unido unipartidário, Blair, com uma participação fraquíssima dos eleitores, foi eleito líder supremo por cerca de um quarto do eleitorado. Se a apatia pública continuar igual e os partidos de oposição tiverem resultados igualmente lamentáveis na próxima eleição, Blair ou
seu sucessor poderão alcançar um poder igualmente absoluto, com uma porcentagem de votos ainda menor. É totalmente risível que, num momento em que Blair se fez encurralar num canto do ringue, nenhum dos líderes da oposição britânica consiga levantar um dedo contra ele. Mas essa é a tragédia
do Reino Unido, assim como é da América: à medida que nossos governos mentem, distorcem os fatos e vão perdendo sua credibilidade e à medida que as supostas alternativas parlamentares a eles não fazem nada, o eleitorado simplesmente dá de ombros e olha para o outro lado. Os políticos nunca
acreditam em quão pouco conseguem nos enganar. Assim, o importante no Reino Unido não é qual partido político formará o governo após a debacle que já se pode antever, mas quem ocupará o assento do motorista. A melhor chance de sobrevivência política pessoal de Blair se dará se, na última hora, os protestos mundiais e uma ONU fortalecida obrigarem Bush a empurrar sua arma de volta para dentro do coldre, sem dispará-la. Mas o que acontecerá quando o maior caubói do mundo voltar para a cidade, sobre seu cavalo, sem trazer a cabeça de um tirano para mostrar aos rapazes?
A pior chance de Blair se dará se, com ou sem a ONU, Bush nos arrastar para dentro de uma guerra que, se tivesse havido disposição em negociar energicamente, poderia ter sido evitada; uma guerra que não foi debatida democraticamente no Reino Unido, não mais do que o foi na América ou na ONU.
Com isso, Blair terá ajudado a provocar retaliações imprevisíveis, grande intranquilidade interna e caos regional no Oriente Médio. Ele terá provocado um retrocesso em nossas relações com a Europa e o Oriente Médio que poderá ser sentido por décadas futuras. Bem-vindo ao partido da Política Externa Ética.
Existe uma via intermediária, mas é difícil de ser seguida: Bush mergulha sem a aprovação da ONU, e Blair fica na margem do rio. Adeus ao relacionamento especial com os EUA. O fedor do farisaísmo religioso que se espalha pelo ar americano lembra o Império Britânico no que ele tinha de pior. O manto de lorde Curzon cai mal sobre os ombros dos colunistas de Washington elegantemente conservadores.
Sinto ainda mais asco quando ouço meu primeiro-ministro aplicar seus sofismas de líder secundarista a essa aventura abertamente colonialista. Seus temores muito reais quanto ao terror são compartilhados por todas as pessoas de sã consciência. O que ele não consegue explicar é como
equaciona uma investida mundial contra a Al Qaeda com um ataque territorial contra o Iraque. Estaremos nessa guerra, se ela se concretizar, para garantir a folha de parreira de nosso relacionamento especial com a América, para agarrar nossa fatia do bolo petrolífero e porque, depois de todos os namoricos públicos vistos em Washington e Camp David, Blair não poderá deixar de
comparecer ao altar.
“Mas será que vamos vencer, papai?”
“É claro que sim, meu filho. E tudo terá acabado enquanto você ainda estiver dormindo.”
“Por quê?”
“Porque senão os eleitores de Bush vão ficar muito impacientes e podem decidir não votar nele, afinal.”
“Mas será que vai haver gente morta, papai?”
“Ninguém que você conheça, meu bem. Só gente estrangeira.”
“Vou poder ver na televisão?”
“Só se Bush disser que sim.”
“E depois, vai ficar tudo normal outra vez? Ninguém mais vai fazer nada horrível?”
“Chega, meu filho, durma.”
Há uma semana, um amigo americano meu na Califórnia foi até o supermercado local com um adesivo em seu carro dizendo “a paz também é patriótica”. Quando terminou de fazer compras, o adesivo já tinha sido arrancado.

Meu amigo André Kenji me mandou este texto do escritor inglês John Le Carré, onde ele fala sobre a crise Bush-Blair-Saddam. A tradução é da Clara Allain:

Loucura histórica toma conta dos EUA

JOHN LE CARRÉ

Os EUA entraram em um de seus períodos de loucura histórica,mas este é o pior da qual consigo me recordar -pior do que o macarthismo, pior do que a baía dos Porcos e, a longo prazo, potencialmente mais desastroso do que a Guerra do Vietnã. A reação a 11 de setembro supera qualquer coisa que
Osama poderia ter esperado, mesmo em seus sonhos mais maquiavélicos. Como nos tempos de McCarthy, os direitos e as liberdades dos cidadãos que fizeram dos EUA alvo da inveja do mundo estão sendo sistematicamente corroídos.
A perseguição movida contra estrangeiros residentes nos EUA continua, sem trégua. Homens “não-permanentes” de origem norte-coreana ou do Oriente Médio desaparecem, sendo mantidos detidos em segredo, com base em acusações secretas e em decisões secretas de juízes. Palestinos residentes nos EUA, que, antes de 11 de setembro, eram considerados apátridas e, portanto, não podiam ser deportados, estão sendo entregues a Israel para serem “reassentados” na faixa de Gaza e na Cisjordânia, lugares onde muitos deles nunca antes colocaram os pés.
Será que nós, aqui no Reino Unido, estamos jogando o mesmo jogo? Imagino que sim. Dentro de 30 anos seremos autorizados a saber. A combinação de mídia americana obediente e interesses das grandes empresas está mais uma vez fazendo com que uma discussão que deveria estar sendo travada em praça pública se restrinja às colunas mais “nobres” da imprensa da Costa Leste americana: procure lá pela página 27 do primeiro caderno, se for capaz de encontrar e compreendê-la.
Nenhum governo americano até hoje manteve seus planos e propósitos em segredo tão grande. Se os serviços de inteligência não souberem de nada, então será o segredo mais bem guardado de todos. Vale lembrar que são essas as mesmas organizações que nos brindaram com a maior falha da história dos serviços de informações: o 11 de setembro. A guerra iminente foi planejada anos antes de Osama
bin Laden dar seu golpe, mas foi Osama quem a tornou possível. Sem Osama, a junta Bush ainda estaria tentando explicar problemas complexos quanto o de como conseguiu ser eleita, em primeiro lugar; a Enron, o favorecimento desavergonhado que brinda àqueles que já são ricos demais e o descaso inconsequente com que trata os pobres do mundo, o ambientalismo e toda uma série de tratados internacionais unilateralmente rescindidos por ela. É possível que também estivesse tendo de nos explicar por que apóia o descaso com que Israel continua a tratar resoluções da ONU que lhe dizem respeito.
Mas Osama, de modo muito conveniente, varreu tudo isso para debaixo do tapete. Agora os seguidores de Bush estão na crista da onda. Segundo nos dizem, 88% dos americanos são favoráveis à guerra. O orçamento norte-americano da Defesa foi acrescido de mais US$ 60 bilhões, chegando a cerca de US$ 360 bilhões. Uma nova e magnífica geração de armas nucleares americanas se encontra em processo de produção, feita sob medida para responder com força igual às armas nucleares, químicas
e biológicas que estão nas mãos dos “Estados delinquentes”. Podemos todos respirar aliviados.
E os EUA não apenas estão decidindo de maneira unilateral quem pode ou não pode possuir tais armas. Também reservam para si o direito unilateral de posicionar suas próprias armas nucleares, sem pensar duas vezes, onde e quando consideram que seus interesses, amigos ou aliados estiverem
sendo ameaçados. Exatamente quem serão esses amigos e aliados nos próximos anos será, como sempre na política, um enigma. Você faz bons amigos e aliados, você os arma até os dentes. Um
dia eles deixam de ser seus amigos e aliados. Você os derruba com uma bomba nuclear.
Vale a pena lembrar por quantas longas horas e quão seriamente o gabinete americano analisou a opção de usar uma arma nuclear contra o Afeganistão, na esteira de 11 de setembro. Felizmente para todos nós, mas especialmente para os afegãos, cuja cumplicidade com o 11 de setembro foi muito
menor do que a dos paquistaneses, os EUA se contentaram em usar bombas “convencionais” de 25 mil toneladas, que, ao que consta, causam tantos danos quanto uma arma nuclear pequena, de qualquer maneira. Mas da próxima vez será para valer.
Exatamente que guerra 88% dos americanos pensam estar apoiando está bem menos claro. Uma guerra por quanto tempo? A que custo em termos de vidas americanas? A que custo para o bolso do contribuinte americano? A que custo -pois a maioria desses 88% de americanos é feita de pessoas
inteiramente decentes e humanas- em termos de vidas iraquianas? Hoje isso deve ser um segredo de Estado, mas a operação Tempestade no Deserto custou ao Iraque pelo menos duas vezes o número de vidas perdidas pelos EUA perderam em toda a Guerra do Vietnã.
Como Bush e sua junta conseguiram desviar a ira da América de Osama bin Laden para Saddam Hussein é um dos grandes truques mágicos de relações públicas da história. Mas conseguiram. Uma sondagem de opinião recente mostrou que, hoje, 1 em cada 2 americanos acredita que foi Saddam
o responsável pelo ataque ao World Trade Center. Mas o público americano não está apenas sendo enganado. Está sendo ameaçado, intimidado, amedrontado e mantido num estado permanente de ignorância e medo, com a consequente dependência de suas lideranças. Se tudo sair como querem
Bush e seus colegas conspiradores, a neurose cuidadosamente orquestrada deve conduzi-los à vitória sem surpresas na próxima eleição.
Quem não está do lado de Bush está contra ele. Pior ainda – veja seu discurso de 3 de janeiro -, está do lado do inimigo. É estranho, porque eu, por exemplo, estou inteiramente contra Bush, mas adoraria assistir à queda de Saddam – apenas não nos termos de Bush e pelos métodos dele. E tampouco sob uma bandeira de hipocrisia tão desavergonhada.
O colonialismo americano à velha moda está prestes a abrir suas asas de chumbo sobre todos nós. Mais “Americanos Tranquilos” [referência a “The Quiet American, livro de Graham Greene] estão se infiltrando em cidades insuspeitas do que no auge da Guerra Fria. O discurso religioso farisaico que vai enviar as tropas americanas à guerra é talvez o aspecto mais nauseante dessa surreal guerra que está por vir. Bush possui o monopólio sobre as revelações de Deus. E Deus tem opiniões políticas muito específicas. Deus escolheu a América para salvar o mundo de qualquer
maneira que agradar à América. Deus escolheu Israel para ser o foco da política norte-americana
para o Oriente Médio, e qualquer pessoa que queira contestar essa idéia é: a) anti-semita; b) antiamericana; c) favorável ao inimigo; e d) terrorista.
Deus também tem algumas conexões bem assustadoras. Na América, onde todos os homens são iguais a Seus olhos, mesmo que não o sejam aos olhos uns dos outros, a família Bush inclui um presidente, um ex-presidente, um ex-diretor da CIA, o governador da Flórida e o ex-governador do Texas. Bush pai tem algumas boas guerras a seu favor em sua folha de serviços, além de uma reputação merecida
por despejar a ira da América sobre Estados clientes desobedientes. Uma guerrinha que ele lançou pessoalmente, à mão, foi contra seu antigo colega da CIA, o panamenho Manuel Noriega, que lhe tinha prestado bons serviços durante a Guerra Fria, mas, quando esta terminou, acabou por querer ultrapassar seus limites devidos. Não dá para o poder se tornar muito mais nu e cru do que isso, e
os americanos estão cientes disso.
Quer algumas dicas? George W. Bush. 1978-84: alto executivo da Arbusto Energy/ Bush Exploration, empresa petrolífera. 1986-1990: executivo sênior da companhia petrolífera Harken. Dick Cheney. 1995-2000: executivo-chefe da companhia petrolífera Halliburton. Condoleezza Rice. 1991-2000: executiva sênior da companhia petrolífera Chevron, que batizou um petroleiro com o nome dela. E assim por diante. Mas nenhuma dessas associações casuais afeta a integridade da obra de Deus. Estamos falando de valores honestos. E sabemos onde seus filhos estudam.
Em 1993, quando o ex-presidente George Bush estava fazendo uma visita social ao sempre democrático reino do Kuait para receber seus agradecimentos por tê-lo libertado, alguém tentou matá-lo. A CIA acreditou que o “alguém” fosse Saddam Hussein. Isso explica o grito de Bush júnior: “Aquele homem tentou matar meu pai”. Mas não é nada pessoal – é guerra. Ainda é necessária. Ainda é o desígnio de Deus. Ainda se trata de levar liberdade e democracia ao povo iraquiano pobre e oprimido.
Para ser membro aceitável da equipe de Bush, parece que também é preciso acreditar no Bem Absoluto e no Mal Absoluto, e Bush, com muita ajuda de seus amigos, familiares e Deus, está lá para nos dizer qual é qual. Acho que talvez eu seja do Mal por ter escrito este texto, terei de checar.
O que Bush se recusa a nos dizer é a verdade sobre o porquê de estarmos indo à guerra. O que está em jogo não é um tal de “eixo do mal”, mas petróleo, dinheiro e vidas humanas. O azar de Saddam é que ele está sentado em cima do segundo maior campo de petróleo do mundo. O azar do vizinho Irã é possuir os maiores depósitos mundiais de gás natural. Bush quer os dois, e quem ajudá-lo a consegui-los vai receber uma fatia do bolo. Quem não ajudar não ganhará nada. Se Saddam não tivesse o petróleo, ele poderia torturar e matar seus próprios cidadãos à vontade. Outros líderes o fazem diariamente -pense na Arábia Saudita, no Paquistão, na Turquia, na Síria, no Egito-, mas esses são nossos amigos e aliados.
Na realidade, desconfio que Bagdá não ofereça nenhum perigo real e imediato a seus vizinhos, e nenhum mesmo aos EUA ou ao Reino Unido. As armas de destruição em massa de Saddam Hussein, se é que ele ainda as tem, serão café pequeno comparadas às coisas que Israel ou os EUA poderiam atirar contra ele com aviso prévio de apenas cinco minutos. O que está em jogo não é uma ameaça militar ou terrorista iminente, mas o imperativo econômico do crescimento dos EUA. O que está em jogo é a necessidade dos EUA de demonstrar sua hegemonia militar a todos nós -à Europa, à Rússia,
à China e até mesmo à pobre e louca Coréia do Norte, sem falar no Oriente Médio, para mostrar quem é que manda na América em casa e quem será mandado pela América fora de suas fronteiras.
A interpretação mais generosa que pode ser feita da parte que Tony Blair desempenha em tudo isto é que ele achou que, cavalgando o tigre, pudesse direcioná-lo. Não conseguiu. Em lugar disso, conferiu a ele uma legitimidade falsa e uma voz macia. Hoje, temo que o mesmo tigre o tenha encurralado num canto do qual ele não consegue mais sair. Ironicamente, o próprio George W. pode estar se sentindo
um pouco assim, também. No Reino Unido unipartidário, Blair, com uma participação fraquíssima dos eleitores, foi eleito líder supremo por cerca de um quarto do eleitorado. Se a apatia pública continuar igual e os partidos de oposição tiverem resultados igualmente lamentáveis na próxima eleição, Blair ou
seu sucessor poderão alcançar um poder igualmente absoluto, com uma porcentagem de votos ainda menor. É totalmente risível que, num momento em que Blair se fez encurralar num canto do ringue, nenhum dos líderes da oposição britânica consiga levantar um dedo contra ele. Mas essa é a tragédia
do Reino Unido, assim como é da América: à medida que nossos governos mentem, distorcem os fatos e vão perdendo sua credibilidade e à medida que as supostas alternativas parlamentares a eles não fazem nada, o eleitorado simplesmente dá de ombros e olha para o outro lado. Os políticos nunca
acreditam em quão pouco conseguem nos enganar. Assim, o importante no Reino Unido não é qual partido político formará o governo após a debacle que já se pode antever, mas quem ocupará o assento do motorista. A melhor chance de sobrevivência política pessoal de Blair se dará se, na última hora, os protestos mundiais e uma ONU fortalecida obrigarem Bush a empurrar sua arma de volta para dentro do coldre, sem dispará-la. Mas o que acontecerá quando o maior caubói do mundo voltar para a cidade, sobre seu cavalo, sem trazer a cabeça de um tirano para mostrar aos rapazes?
A pior chance de Blair se dará se, com ou sem a ONU, Bush nos arrastar para dentro de uma guerra que, se tivesse havido disposição em negociar energicamente, poderia ter sido evitada; uma guerra que não foi debatida democraticamente no Reino Unido, não mais do que o foi na América ou na ONU.
Com isso, Blair terá ajudado a provocar retaliações imprevisíveis, grande intranquilidade interna e caos regional no Oriente Médio. Ele terá provocado um retrocesso em nossas relações com a Europa e o Oriente Médio que poderá ser sentido por décadas futuras. Bem-vindo ao partido da Política Externa Ética.
Existe uma via intermediária, mas é difícil de ser seguida: Bush mergulha sem a aprovação da ONU, e Blair fica na margem do rio. Adeus ao relacionamento especial com os EUA. O fedor do farisaísmo religioso que se espalha pelo ar americano lembra o Império Britânico no que ele tinha de pior. O manto de lorde Curzon cai mal sobre os ombros dos colunistas de Washington elegantemente conservadores.
Sinto ainda mais asco quando ouço meu primeiro-ministro aplicar seus sofismas de líder secundarista a essa aventura abertamente colonialista. Seus temores muito reais quanto ao terror são compartilhados por todas as pessoas de sã consciência. O que ele não consegue explicar é como
equaciona uma investida mundial contra a Al Qaeda com um ataque territorial contra o Iraque. Estaremos nessa guerra, se ela se concretizar, para garantir a folha de parreira de nosso relacionamento especial com a América, para agarrar nossa fatia do bolo petrolífero e porque, depois de todos os namoricos públicos vistos em Washington e Camp David, Blair não poderá deixar de
comparecer ao altar.
“Mas será que vamos vencer, papai?”
“É claro que sim, meu filho. E tudo terá acabado enquanto você ainda estiver dormindo.”
“Por quê?”
“Porque senão os eleitores de Bush vão ficar muito impacientes e podem decidir não votar nele, afinal.”
“Mas será que vai haver gente morta, papai?”
“Ninguém que você conheça, meu bem. Só gente estrangeira.”
“Vou poder ver na televisão?”
“Só se Bush disser que sim.”
“E depois, vai ficar tudo normal outra vez? Ninguém mais vai fazer nada horrível?”
“Chega, meu filho, durma.”
Há uma semana, um amigo americano meu na Califórnia foi até o supermercado local com um adesivo em seu carro dizendo “a paz também é patriótica”. Quando terminou de fazer compras, o adesivo já tinha sido arrancado.

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