Musique Non Stop

O jornalismo carioca presta mais um desserviço à já ridicularizada cena underground na forma da matéria “Electro: A Tribo”, que saiu na capa de um tablóide carioca de programação na semana passada. Continuando a nossa tradição de uma cobertura cultural lamentável e ignorante, a matéria é apenas mais um tijolo na gigantesca parede-mosaico que ilustra a cretinice da cena eletrônica carioca. Vamos analisar aqui alguns pontos óbvios e flagrantes dessa longa história.

Antes de tudo, o que fica mais claro em toda essa relação entre o “underground” carioca – existe isso? – e a mídia mais careta e babaca é que as figuras que pensam em si mesmas como as mais ilustres do tal “underground” não titubeiam nem por um minuto antes de pagar a maior mico de suas vidas e posar como artefatos exóticos para a imprensa mais burra que o Rio de Janeiro já teve. O “underground” nunca quis tanto ser global. Lembro que, quando Wolf Maya estava dirigindo aquela novelinha que tinha um “núcleo” “clubber”, todos os modernóides cariocas se dirigiram aos bandos para os locais das filmagens, como pássaros mongolóides migrando para algum lugar. Se prestaram ao papel de ficar horas sem comer e beber em regiões inóspitas do planeta, como a Barra da Tijuca, para aparecer em uma novela. Belo comportamento underground.

E agora, como já aconteceu antes, se prestam de bom grado a aparecer de uma forma anódina e digna de Bozó em uma matéria de “comportamento” das mais absurdas (vamos chegar às matérias de “comportamento” mais para a frente). OK, vamos colocar algumas coisas claras: somente no Rio de Janeiro o “underground” quer ser global. Somente nesta cidade esquecida pelo bom gosto e pelo bom senso pessoas supostamente “de vanguarda” sorriem ao catar as migalhas que caem da câmera ou microfone mais próximo, sejam os da Vizoo ou, no outro extremo da idiotice midiática, da Globo.

Em Londres, onde surgiu, afinal, o objeto de que estamos falando aqui, o chamado “underground” não fica feliz em aparecer na capa dos tablóides de fofocas (aqueles que estampam manchetes como “David Beckham é na verdade um duende de sete cabeças” ou “Lady Di era uma extraterrestre lésbica”). Simplesmente porque: a) Tal tipo de divulgação não os ajudará em nada, já que eles não precisam de divulgação e b) Pessoas têm senso de ridículo. O fato de que você usa cílios postiços púrpura não quer dizer necessariamente que você está disposto a pagar qualquer King Kong para aparecer. Pelo contrário, deveria sugerir que você sabe fazer suas opções estéticas. Ah, e de qualquer forma, a imprensa careta britânica só se aproximaria dessas pessoas para fazer alguma matéria escandalosa anti-drogas.

Os afagos mútuos entre nossos “jornalistas” e (ouch) “colunistas” dos cadernos de “cultura” e as pessoas de várias cenas são bisonhos. De um lado, temos um bando de velhos que mal sabe do que estão falando ou escrevendo, mas parecem dispostos a “cobrir” qualquer tipo de comportamento que passe pelo Leblon para soar “descolados” e “antenados”. Do outro, temos participantes e freqüentadores de uma cena que mal entendem o que estão fazendo e, assim, acham que aparecer – ainda que de forma cretina e rasa – em qualquer fanzine disfarçado de jornal será algo “válido”. Sendo um ex-império, o Rio de janeiro mantém esse caráter autofágico, baseado em interrelações de classe e bairros que perpetuam a máquina da ignorância. Meia dúzia de mimadinhos entediados realmente acham que são os “tops” de alguma coisa qualquer e convencem algum mané jornalista que ouviu a vaca cantar e não sabe aonde (sim, porque nem descobriram que o galo existe ainda)

OK, para deixar uma coisa clara: eu não sou um destes palhaços que frequentam a Lapa e se acham de esquerda ou nacionalistas. As manifestações artísticas de que mais gosto não têm traços de cultura “nacional” ou de “contrapartida social” (coisas que só têm importância para quem não está interessado em arte). Mas uma cena – qualquer que seja – deve ter algum cérebro. Já está provado que 56% dos estudantes brasileiros não conseguem entender o que lêem. Agora imagine alguém assim lendo a Mixmag ou a Muzik e você terá uma noção da ponta do iceberg.

O resultado é uma cena que não sabe a que veio, para que veio e para onde vai. A música não importa, o que importa são as malditas munhequeiras e “ei, você sabe quem tem GHB pra vender?”. Uma cena cultural formada por vendedores de lojinhas de shopping, ignorante e semi-alfabetizada, que exatamente por isso se propõem a agir da forma mais globete possível. Basta uma olhada no site do club Egg, onde rola a festa Nag Nag Nag, ou uma lida em algum site decente sobre música para entender que o buraco é muito mais embaixo das munhequeiras Nike. Em Londres ou Nova York, o público já têm uma sofisticação que os faz entender que rótulos e enquadramentos só funcionam para matar alguma cena. Nenhum londrino decente gostaria de ser flagrado em público trajando exatamente o que lhe foi dito, como um maldito mórmon. Será que o fato de lerem algo e fazerem algo durante o dia faz alguma diferença? Afinal, quando você é um vendedor de loja ou um filho entediado você quer aparecer de qualquer forma.

Mas não estou generalizando: na cena carioca existem pessoas razoáveis, normalmente as que não aparecem nessas matérias. Uma coisa que me chamou a atenção foram os DJs falando que “é difícil tocar electro, não existe material suficiente”.

Alô?

Como assim? Isso acontece no Rio porque aqui os DJs só sabem mixar se tocarem a noite inteira coisas de um só selo. Lembro dos DJs de techno e house que ficavam a noite inteira na mesma lenga-lenga, porque “só tocavam techno alemão”. Não quero dizer que eles devam interromper o bom andamento do set para tocar reggae ou merda parecida, mas que parem de seguir os set lists e charts de DJs e gravadoras. Não é preciso tocar só coisas da International Gigolos pra fazer um set de electro – e muito menos de electroclash, embora esse termo tenha sido criado pelo próprio DJ Hell, da Gigolos. Como assim, existe pouco material? Sim, se você for contar apenas com os 18 vinis da International Gigolos que você tem, o material será pouco. Mas dizer que há pouco material é uma fabulosa demonstração de ignorância musical. Afrika Bambaataa, alguém? Kurtis Mantronik? Até mesmo um remix da Ruby? Depeche Mode remixado pela Andrea Parker? Sabem, o electro já existia antes dos Gigolos e de Miss Kittin. É só procurar e ler alguma coisa a mais do que os catálogos da Index.

Ah, não, mas aí não dá, porque é electrofunk, e não electroclash. Façam como um DJ de verdade e usem um sampler para mudar os beats e loops dessas coisas. Coloquem o maldito tecladinho vintage, com aquele arpeggiator no automático que o Human League tanto gostava. Enfim, sejam DJs. Comprando menos calças por mês, dá pra fazer isso. Ou então assumam que o conhecimento de vocês termina no último código de barras do catálogo da Gigolo Records. “Pouco material” é uma desculpa das mais risíveis.

O que me lembra a mico que aconteceu quando o Prodigy veio tocar aqui. Liam Howlett queria um DJ nacional de big beats para abrir o show dos caras. Desespero. Meu Deus, o que é esse tal de big beats? Se não estivessem tão ocupados folheando a The Face ou alguma outra revista cuja relevância morreu com o Culture Club, saberiam o que são os malditos big beats. As pessoas pensantes da cena ensinaram o DJ escolhido o que era, emprestaram discos de Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash ou sei lá o quê e assim se move a nossa “cena”.
Falo dos big beats porque eles ajudaram a renovar o electro “tradicional” entre os DJs. Figuras como Liam Howlett e Fatboy Slim – ao contrário dos nossos DJs de techno e house – não tocavam só techno e house a noite inteira, mas acrescentavam faixas de electro, funk setentista e breakbeats ao seu set. Diabos, os Chemical Brothers levantaram uma madrugada de Ibiza tocando “Billie Jean” do Michael Jackson! Essa mistura são os big beats. É sintomático que justamente um estilo que implique em misturas de gêneros crie problemas para os promoters de shows cariocas. Claro, temos DJs que seguem a cartilha, mixam o último kick de uma faixa de house com o primeiro kick de outra faixa de house e assim segue nossa vidinha.

Lembrando ainda que o tal electroclash que, coitado, acaba de se tornar a bola da vez nas bocas dos ignorantes da Lapa ao Baixo Gávea, é mais misturado ainda que o big beat. Não é só uma questão de misturar as batidas electro do Kraftwerk com os arpeggios vintage melódicos do Yazoo. A Nag Nag Nag toca electro, electrofunk, punk rock (sim, punk rock) e outras coisas. Dá pra tocar uma faixa de Adamski, Associates, Mantronix ou dos Sex Pistols e transformá-la, via mixagem com outros beats, em algo aproveitável electroclashisticamente.Mas para isso precisaríamos de DJs que gostassem de música e ouvissem algo além de electro em casa, e no Rio temos uns dois ou três que são assim. Afinal, é mais fácil baixar o set list da Gigolo e tentar achar os referidos vinis.

E se você a essa altura está pensando “esses caras são uns manés, viva o meu berimbau ou minha embolada de coco”, cale a boca. As cenas techno, house, punk, hip hop, electro, electroclash, etc do Brasil sempre pecaram pela falta de informação, pela vontade de ser global (em alguns casos) ou pela sub-cultura iletrada de shopping. Mas ao menos estão lidando com algo de relevância para suas vidas e para a situação atual da cultura pop. Dixer que “meu berimbau é mais sei lá o quê” é uma estupidez ainda mais ululante que achar que não existe electro além da Miss Kittin. Tá achando que berimbau é gaita?

Graças à ditadura militar, à criação pouco instrutiva dos pais dos anos 70 e à deficiência educacional brasileira, criou-se uma geração de velhos de 22 anos que é algo realmente triste. Pessoas que citam Chico Buarque em rodinhas de samba na Lapa ou acham que Caetano Veloso ainda é relevante. Pesoas que, em 2003, estão descobrindo bandas como Smiths e Cure, bandas que apareceram quando elas tinham cinco anos de idade, em 1985 (no caso do Cure, quando elas nem eram nascidas, em 1979). E, lançando mão dos pobres grupos de rock dos anos 80, acusam a cena eletrônica de ser “modernóide” ou algo do mesmo previsível gênero.

Mas acordem: quando estas bandas surgiram e tinham alguma importância estética, seus antepassados sociais (os manés fãs de rock progressivo e Scorpions, sei lá) diziam exatamente a mesma coisa: “Cure e Joy Division são bandas para essas pessoas metidas a modernas”. Ou seja, vocês estão sendo exatamente iguais aos fãs de electro que criticam, só que – pecado mortal – 15 anos depois, em relação a algo que surgiu quando vocês eram crianças. Então, calem a boca, velhos de 22 anos. Sim, é a nova geriatria. Daqui há 15 anos, estarão ouvindo electro.

Felizmente, entre jornalistas inadequados e ignorantes, uma fatia da cena voltada para a Globo e cafonices similares, DJs que não são DJs e jovens-velhos ripongas e atrasados de 22 anos, sobrevive a relevância da música eletrônica. Quem faz música não está interessado em capas de jornais cafonas, nem em que roupa o cara ali do lado está usando. Para ficar nos envolvidos no electro, tanto o electrofunk quanto o electroclash, Kraftwerk, Human League, Yello, Soul Sonic Force, Miss Kittin, The Hacker e The Experiment não estão interessados em descobrir se são parte ou não da tribo electro, da tribo house ou de alguma tribo do (da?) Xingu. O importante é fazer e não posar. Nos faria muito bem se parássemos de pensar em cadernos de sub-cultura, em jornais cafonas, em DJs sem talento e em top-vendedores de loja.

Suck my dick, lick my ass.

O jornalismo carioca presta mais um desserviço à já ridicularizada cena underground na forma da matéria “Electro: A Tribo”, que saiu na capa de um tablóide carioca de programação na semana passada. Continuando a nossa tradição de uma cobertura cultural lamentável e ignorante, a matéria é apenas mais um tijolo na gigantesca parede-mosaico que ilustra a cretinice da cena eletrônica carioca. Vamos analisar aqui alguns pontos óbvios e flagrantes dessa longa história.

Antes de tudo, o que fica mais claro em toda essa relação entre o “underground” carioca – existe isso? – e a mídia mais careta e babaca é que as figuras que pensam em si mesmas como as mais ilustres do tal “underground” não titubeiam nem por um minuto antes de pagar a maior mico de suas vidas e posar como artefatos exóticos para a imprensa mais burra que o Rio de Janeiro já teve. O “underground” nunca quis tanto ser global. Lembro que, quando Wolf Maya estava dirigindo aquela novelinha que tinha um “núcleo” “clubber”, todos os modernóides cariocas se dirigiram aos bandos para os locais das filmagens, como pássaros mongolóides migrando para algum lugar. Se prestaram ao papel de ficar horas sem comer e beber em regiões inóspitas do planeta, como a Barra da Tijuca, para aparecer em uma novela. Belo comportamento underground.

E agora, como já aconteceu antes, se prestam de bom grado a aparecer de uma forma anódina e digna de Bozó em uma matéria de “comportamento” das mais absurdas (vamos chegar às matérias de “comportamento” mais para a frente). OK, vamos colocar algumas coisas claras: somente no Rio de Janeiro o “underground” quer ser global. Somente nesta cidade esquecida pelo bom gosto e pelo bom senso pessoas supostamente “de vanguarda” sorriem ao catar as migalhas que caem da câmera ou microfone mais próximo, sejam os da Vizoo ou, no outro extremo da idiotice midiática, da Globo.

Em Londres, onde surgiu, afinal, o objeto de que estamos falando aqui, o chamado “underground” não fica feliz em aparecer na capa dos tablóides de fofocas (aqueles que estampam manchetes como “David Beckham é na verdade um duende de sete cabeças” ou “Lady Di era uma extraterrestre lésbica”). Simplesmente porque: a) Tal tipo de divulgação não os ajudará em nada, já que eles não precisam de divulgação e b) Pessoas têm senso de ridículo. O fato de que você usa cílios postiços púrpura não quer dizer necessariamente que você está disposto a pagar qualquer King Kong para aparecer. Pelo contrário, deveria sugerir que você sabe fazer suas opções estéticas. Ah, e de qualquer forma, a imprensa careta britânica só se aproximaria dessas pessoas para fazer alguma matéria escandalosa anti-drogas.

Os afagos mútuos entre nossos “jornalistas” e (ouch) “colunistas” dos cadernos de “cultura” e as pessoas de várias cenas são bisonhos. De um lado, temos um bando de velhos que mal sabe do que estão falando ou escrevendo, mas parecem dispostos a “cobrir” qualquer tipo de comportamento que passe pelo Leblon para soar “descolados” e “antenados”. Do outro, temos participantes e freqüentadores de uma cena que mal entendem o que estão fazendo e, assim, acham que aparecer – ainda que de forma cretina e rasa – em qualquer fanzine disfarçado de jornal será algo “válido”. Sendo um ex-império, o Rio de janeiro mantém esse caráter autofágico, baseado em interrelações de classe e bairros que perpetuam a máquina da ignorância. Meia dúzia de mimadinhos entediados realmente acham que são os “tops” de alguma coisa qualquer e convencem algum mané jornalista que ouviu a vaca cantar e não sabe aonde (sim, porque nem descobriram que o galo existe ainda)

OK, para deixar uma coisa clara: eu não sou um destes palhaços que frequentam a Lapa e se acham de esquerda ou nacionalistas. As manifestações artísticas de que mais gosto não têm traços de cultura “nacional” ou de “contrapartida social” (coisas que só têm importância para quem não está interessado em arte). Mas uma cena – qualquer que seja – deve ter algum cérebro. Já está provado que 56% dos estudantes brasileiros não conseguem entender o que lêem. Agora imagine alguém assim lendo a Mixmag ou a Muzik e você terá uma noção da ponta do iceberg.

O resultado é uma cena que não sabe a que veio, para que veio e para onde vai. A música não importa, o que importa são as malditas munhequeiras e “ei, você sabe quem tem GHB pra vender?”. Uma cena cultural formada por vendedores de lojinhas de shopping, ignorante e semi-alfabetizada, que exatamente por isso se propõem a agir da forma mais globete possível. Basta uma olhada no site do club Egg, onde rola a festa Nag Nag Nag, ou uma lida em algum site decente sobre música para entender que o buraco é muito mais embaixo das munhequeiras Nike. Em Londres ou Nova York, o público já têm uma sofisticação que os faz entender que rótulos e enquadramentos só funcionam para matar alguma cena. Nenhum londrino decente gostaria de ser flagrado em público trajando exatamente o que lhe foi dito, como um maldito mórmon. Será que o fato de lerem algo e fazerem algo durante o dia faz alguma diferença? Afinal, quando você é um vendedor de loja ou um filho entediado você quer aparecer de qualquer forma.

Mas não estou generalizando: na cena carioca existem pessoas razoáveis, normalmente as que não aparecem nessas matérias. Uma coisa que me chamou a atenção foram os DJs falando que “é difícil tocar electro, não existe material suficiente”.

Alô?

Como assim? Isso acontece no Rio porque aqui os DJs só sabem mixar se tocarem a noite inteira coisas de um só selo. Lembro dos DJs de techno e house que ficavam a noite inteira na mesma lenga-lenga, porque “só tocavam techno alemão”. Não quero dizer que eles devam interromper o bom andamento do set para tocar reggae ou merda parecida, mas que parem de seguir os set lists e charts de DJs e gravadoras. Não é preciso tocar só coisas da International Gigolos pra fazer um set de electro – e muito menos de electroclash, embora esse termo tenha sido criado pelo próprio DJ Hell, da Gigolos. Como assim, existe pouco material? Sim, se você for contar apenas com os 18 vinis da International Gigolos que você tem, o material será pouco. Mas dizer que há pouco material é uma fabulosa demonstração de ignorância musical. Afrika Bambaataa, alguém? Kurtis Mantronik? Até mesmo um remix da Ruby? Depeche Mode remixado pela Andrea Parker? Sabem, o electro já existia antes dos Gigolos e de Miss Kittin. É só procurar e ler alguma coisa a mais do que os catálogos da Index.

Ah, não, mas aí não dá, porque é electrofunk, e não electroclash. Façam como um DJ de verdade e usem um sampler para mudar os beats e loops dessas coisas. Coloquem o maldito tecladinho vintage, com aquele arpeggiator no automático que o Human League tanto gostava. Enfim, sejam DJs. Comprando menos calças por mês, dá pra fazer isso. Ou então assumam que o conhecimento de vocês termina no último código de barras do catálogo da Gigolo Records. “Pouco material” é uma desculpa das mais risíveis.

O que me lembra a mico que aconteceu quando o Prodigy veio tocar aqui. Liam Howlett queria um DJ nacional de big beats para abrir o show dos caras. Desespero. Meu Deus, o que é esse tal de big beats? Se não estivessem tão ocupados folheando a The Face ou alguma outra revista cuja relevância morreu com o Culture Club, saberiam o que são os malditos big beats. As pessoas pensantes da cena ensinaram o DJ escolhido o que era, emprestaram discos de Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash ou sei lá o quê e assim se move a nossa “cena”.
Falo dos big beats porque eles ajudaram a renovar o electro “tradicional” entre os DJs. Figuras como Liam Howlett e Fatboy Slim – ao contrário dos nossos DJs de techno e house – não tocavam só techno e house a noite inteira, mas acrescentavam faixas de electro, funk setentista e breakbeats ao seu set. Diabos, os Chemical Brothers levantaram uma madrugada de Ibiza tocando “Billie Jean” do Michael Jackson! Essa mistura são os big beats. É sintomático que justamente um estilo que implique em misturas de gêneros crie problemas para os promoters de shows cariocas. Claro, temos DJs que seguem a cartilha, mixam o último kick de uma faixa de house com o primeiro kick de outra faixa de house e assim segue nossa vidinha.

Lembrando ainda que o tal electroclash que, coitado, acaba de se tornar a bola da vez nas bocas dos ignorantes da Lapa ao Baixo Gávea, é mais misturado ainda que o big beat. Não é só uma questão de misturar as batidas electro do Kraftwerk com os arpeggios vintage melódicos do Yazoo. A Nag Nag Nag toca electro, electrofunk, punk rock (sim, punk rock) e outras coisas. Dá pra tocar uma faixa de Adamski, Associates, Mantronix ou dos Sex Pistols e transformá-la, via mixagem com outros beats, em algo aproveitável electroclashisticamente.Mas para isso precisaríamos de DJs que gostassem de música e ouvissem algo além de electro em casa, e no Rio temos uns dois ou três que são assim. Afinal, é mais fácil baixar o set list da Gigolo e tentar achar os referidos vinis.

E se você a essa altura está pensando “esses caras são uns manés, viva o meu berimbau ou minha embolada de coco”, cale a boca. As cenas techno, house, punk, hip hop, electro, electroclash, etc do Brasil sempre pecaram pela falta de informação, pela vontade de ser global (em alguns casos) ou pela sub-cultura iletrada de shopping. Mas ao menos estão lidando com algo de relevância para suas vidas e para a situação atual da cultura pop. Dixer que “meu berimbau é mais sei lá o quê” é uma estupidez ainda mais ululante que achar que não existe electro além da Miss Kittin. Tá achando que berimbau é gaita?

Graças à ditadura militar, à criação pouco instrutiva dos pais dos anos 70 e à deficiência educacional brasileira, criou-se uma geração de velhos de 22 anos que é algo realmente triste. Pessoas que citam Chico Buarque em rodinhas de samba na Lapa ou acham que Caetano Veloso ainda é relevante. Pesoas que, em 2003, estão descobrindo bandas como Smiths e Cure, bandas que apareceram quando elas tinham cinco anos de idade, em 1985 (no caso do Cure, quando elas nem eram nascidas, em 1979). E, lançando mão dos pobres grupos de rock dos anos 80, acusam a cena eletrônica de ser “modernóide” ou algo do mesmo previsível gênero.

Mas acordem: quando estas bandas surgiram e tinham alguma importância estética, seus antepassados sociais (os manés fãs de rock progressivo e Scorpions, sei lá) diziam exatamente a mesma coisa: “Cure e Joy Division são bandas para essas pessoas metidas a modernas”. Ou seja, vocês estão sendo exatamente iguais aos fãs de electro que criticam, só que – pecado mortal – 15 anos depois, em relação a algo que surgiu quando vocês eram crianças. Então, calem a boca, velhos de 22 anos. Sim, é a nova geriatria. Daqui há 15 anos, estarão ouvindo electro.

Felizmente, entre jornalistas inadequados e ignorantes, uma fatia da cena voltada para a Globo e cafonices similares, DJs que não são DJs e jovens-velhos ripongas e atrasados de 22 anos, sobrevive a relevância da música eletrônica. Quem faz música não está interessado em capas de jornais cafonas, nem em que roupa o cara ali do lado está usando. Para ficar nos envolvidos no electro, tanto o electrofunk quanto o electroclash, Kraftwerk, Human League, Yello, Soul Sonic Force, Miss Kittin, The Hacker e The Experiment não estão interessados em descobrir se são parte ou não da tribo electro, da tribo house ou de alguma tribo do (da?) Xingu. O importante é fazer e não posar. Nos faria muito bem se parássemos de pensar em cadernos de sub-cultura, em jornais cafonas, em DJs sem talento e em top-vendedores de loja.

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