O Misterioso Caso de Styles

Romance de estréia de Agatha Christie, Styles foi escrito como resultado de uma aposta que a autora fez com sua irmã, que duvidou que ela fosse capaz de escrever uma história policial. Poucas vezes uma dúvida foi tão bem descartada. Começava ali, em 1916, uma carreira até exageradamente prolífica, que duraria 60 anos, até a morte de Christie, em 1976. São poucos os indícios de que The Mysterious Affair at Styles seja a obra de estréia de uma autora iniciante. Publicado apenas quatro anos depois, em 1920, foi bem recebido pela crítica. O suplemento literário do The Times chegou a dizer que “the only fault this story has is that it is almost too ingenious” (“o único defeito dessa história é que ela chega quase a ser genial demais”). E realmente é, já de cara, um dos melhores romances de Agatha.

Ela lança aqui diversos elementos que viriam a se consolidar como parte integrante da ficção pilicial em sua era de ouro (décadas de 20 e 30): a enorme e isolada mansão rural; um rol de pelo menos meia dúzia de suspeitos, todos com algo a esconder; pistas falsas e reviravoltas surpreendentes. O livro trazia ainda mapas da casa e da cena do crime, além do fragmento de um testamento. E, mais importante, introduziu aquele que viria a se tornar um dos detetives mais importantes do romance policial desde Auguste Dupin e Sherlock Holmes: o pequeno belga Hercule Poirot. Aqui Christie também nos apresenta dois personagens que se tornariam infrequentemente recorrentes: o capitão Arthur Hastings, que narra a história – e voltaria a fazê-lo em diversos outros romances e contos protagonizados por Poirot – e o Inspetor Japp, da Scotland Yard. Ao lançar mão de suas próprias versões de Watson e Lestrade, Christie ainda estava tateando o terreno, absorvendo trunfos de autores como Conan Doyle e Edgar Allan Poe. Mais tarde suas participações seriam bastante reduzidas e suas obras-primas sequer contariam com estes personagens de apoio, como é o caso de O Assassinato de Roger Ackroyd.

Mas aqui, como na maior parte dos livros em que aparece, Hastings cumpre sua função de narrador honesto, ingênuo e confiável. Mas o dono da cena é mesmo Poirot, que surge desde o início como uma figura exuberante, excêntrica (em livros futuros, como A Mansão Hollow, talvez excêntrica demais, a ponto de desviar o clima da história, de acordo com a própria autora), genial e original. Poirot é, de certa forma, o anti-Holmes: se aquele era bagunçado e colhedor de pistas, este era ordeiro, metódico e solucionava o caso usando suas “pequenas células cinzentas”. Christie chegaria a ridicularizar o tipo de detetive a la Holmes em seu segundo romance com Poirot, Assassinato no Campo de Golfe, através da figura do detetive francês Giraud, que “ficava de quatro como um sabujo” em busca de pistas.

Styles se destaca, desde o início, por sua ambientação e caracterização dos personagens. Os membros da família, como acontecem com quase todos os personagens de Christie, parecem pessoas que conhecemos e se torna fácil projetar nelas as qualidades, defeitos e características imaginadas pela autora. É uma forma fácil de caracterização, não de todo adequada para vôos literários mais altos ou experimentais, mas perfeita para o romance de mistério. Christie sabe, à perfeição, que personagens de histórias policiais são, antes de tudo, suspeitos; e lhes confere caracterização e profundidade psicológica suficientes para que não sejam apenas peões intercambiáveis no tabuleiro, mas ao mesmo tempo não transbordem características próprias pelas páginas, afogando as pistas e o caso. Um romance policial caminha naquela tênue linha entre o romance propriamente dito e um jogo de tabuleiro imaginário. Aqui, a caverna de Platão tem marcações invisíveis no chão.

Se demonstra domínio dos personagens, Christie faz da mansão, Styles Court, um local perfeito para a trama; palpável, real, com todas as características que o tornam um retrato da mansão inglesa rural do final da década de 10: estão ali o chá no gramado, mas também o racionamento provocado pela Guerra (ainda a Primeira). Personagens, mansão, mapa, todos os elementos se unem para contar uma história fascinante, com um final que, na época, foi considerado brilhante e inovador para os padrões do gênero – e que se mantém surpreendente até hoje. 

Um detalhe curioso é que Styles Court viria a ser o cenário do último caso de Poirot, em Cai o Pano, de 1976. A mansão, então, já não pertencia mais aos donos originais – a família Cavendish deste livro de estréia – e estava transformada em hotel. Um exemplo de como Christie é bem sucedida em retratar as mudanças sociais e utilizá-las como pano de fundo, geralmente lamentando as novidades e tudo o que considerava uma vulgarização da vida em sociedade.

Neste primeiro livro, Poirot é apresentado como um refugiado belga emigrado para o interior da Inglaterra por causa da Guerra. Hastings, militar reformado, está de licença para se recuperar de um ferimento na perna e hospedado em Styles Court como convidado de um dos membros da família. É ele quem, após o assassinato ser cometido, apresenta Poirot à família e o introduz na mansão, fazendo o belga dar início a uma carreira de detetive particular que duraria várias décadas. O curioso é que Poirot já é apresentado aqui como detetive aposentado da polícia belga; não sei com quantos anos os policiais da Bélgica se aposentavam naquela época, mas se em 1916 Poirot estivesse com, digamos, 45 ou 50 anos, isso quer dizer que ele teria chegado ao seu último caso, em 1976, com 105, 110 anos. Mas a genialidade da maioria das histórias permite que a gente ignore esse detalhe e flexibilize os números da cronologia, para efeitos práticos.

O Misterioso Caso de Styles é extremamente bem sucedido como romance de estréia: apresenta um detetive que viria a se tornar clássico; demonstra o talento da autora para criar ambientações e um rol convincente de personagens; e, principalmente, em conduzir uma trama repleta de pistas falsas e dados escondidos bem à vista. Um dos pontos altos da literatura policial.

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O Misterioso Caso de Styles. Serializado em The Weekly Times entre 27 de fevereiro e 26 de junho de 1920. Publicado como livro em 1º de outubro de 1920 (The Mysterious Affair at Styles).

Nota: 8

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