Interior

Interno-- Gigi Chessa -1895-19352
Interno, de Gigi Chessa

A luz do céu nublado me confundia a ponto de me fazer esquecer o quanto ela estava atrasada. Duas horas? Três? Certamente quatro não seria possível. Mas o peão e a torre que se desafiavam em silêncio, sobras das pelejas solitárias da tarde, entregavam a plenitude do atraso. O tempo imprime novas faces a objetos familiares; a tijela se torna enorme, com diferenças permeando todas as suas curvas antes sequer familiares, mas ignoradas. Os quadrados pretos e brancos do tabuleiro acondicionam em seus micro-mundos o tique e o taque do relógio do corredor, que se alternam sobre as peças de marfim. E veja as páginas lidas. Malraux estava no início essa manhã, agora já me aproximo do meio e nem mesmo assim me revolto contra meu destino: espero a chegada dela, com a mesma sobriedade de fachada tão elogiada e criticada pelos que (não) me conhecem.

Divido os olhos entre as páginas amarelas, as peças e quadrados do tabuleiro, o brilho da luz cada vez mais fraca sobre os objetos e, fingindo escutar a voz dela, olho pela janela e me refugio em uma realidade de âmbar.