O Último Salto

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Imagem de Neil MacCormack

O céu claro escondia duas coisas: a escuridão que permearia nossa trajetória pelo espaço e a impossibilidade de permanência na Terra. Havíamos recolhido tudo? Era estranho pensar dessa forma, como quem tranca a casa e se prepara para uma viagem de fim de semana. Tudo estava aqui? Todos os livros de Borges? Todos os álbuns da música pop? Os filmes de Fellini? Os quadros de Hopper? Os originais de Moebius? Espalhados por diversos cofres-galeria em cada uma das 500 naves-berço, cada uma dessas coleções moldaria a forma de ver e pensar e cheirar e sentir de centenas de novas civilizações humanas. Imagino rebeldes de 14 anos da civilização 44, cansado de sua dieta de Stones e Monet, sonhando com as promessas oníricas de um Miró, um Sex Pistols, coisas a anos-luz de distância. E ainda assim tão próximas, para quem souber como.

Caminho agora pelo deck de metal e olho para o alto. Em algum ponto invisível lá em cima está minha nova casa. Abraço você e entramos no saguão de embarque, nunca prontos para o salto definitivo. Nossas coisas em poucas malas e mochilas, nossos objetos de arte espalhados pelas futuras civilizações. Sentirei falta de Bioy Casares e do Primal Scream. Adeus, caros amigos. Farewell, fair weather friends.

O salto começa e só tenho tempo de apertar forte o seu ombro e olhar uma última vez para as Yosemites, para o Atlântico, para as nuvens, para o ponto azul que flutua no negrume.

I see a red door and I want it painted black.