Bandas “deprês” me enchem o saco. Afinal, o sujeito tem uma banda de rock, lança discos, está em top charts, ganha dinheiro fazendo música e ainda vem reclamar de um monte de coisas no meu ouvido? Tá reclamando de quê?!?? Mas algumas raras pessoas têm propriedade para falar de alguns assuntos. Velvet Underground, Oh Sweet Nuthin’:

Say a word for Jimmy Brown
He ain’t got nothing at all
Not a shirt right of his back
He ain’t got nothing at all
And say a word for Ginger Brown
Walks with his head down to the ground
Took the shoes right of his feet
To poor boy right out in the street

And this is what he said
Oh sweet nuthin’
She ain’t got nothing at all
Oh sweet nutin’
She ain’t got nothing at all

Say a word for Polly May
She can’t tell the night from the day
They threw her out in the street
But just like a cat she landed on her feet
And say a word for Joanna Love
She ain’t got nothing at all
‘Cos everyday she falls in love
And everynight she falls when she does

She said
Oh sweet nuthin’
You know she ain’t got nothing at all
Oh sweet nutin’
She ain’t got nothing at all

Essa música é como alguém derramando vodka com conta-gotas no seu ouvido e está no subestimado álbum Loaded, que o Velvet lançou em 1970 (ano em que eu nasci). 

O calor, recém-chegado do Zimbabwe, me chamou para fora de casa. Andei pela praia por alguns quarteirões. Quer dizer, “praia” é um termo que deixou de ser aplicável à “praia” das Pitangueiras há mais de vinte anos. Minha avó jura que, quando veio morar aqui, no início dos anos 50, a água era cristalina. Hoje, nem na areia dá para pisar. Mas de noite, vendo do asfalto, a escuridão esconde a sujeira e o mar de óleo e até que fica bonito. A Lua estava espantosamente cheia e a superfície da água refletia um vasto brilho de zinco. Ao lado do reflexo da lua, uma pequena ilha transformada em refinaria de óleo, com as luzes todas acesas, deixava sobre a água um reflexo do mesmo tamanho, só que dourado. Pareciam irmãos negativos de diferentes dimensões, como em um número de Invisibles. 

De que lado você está?
Aprenda a ficar invisível. 

Você espera o sinal abrir, atravessa a rua e, quando chega no meio da faixa de pedestres, como se a capa de Abbey Road tivesse sido criada pelo Tarantino, tira uma Uzi das costas da jaqueta e encosta na cabeça do motorista da picape, aos gritos de “sai do carro”. Ele sai, você toma seu lugar e pisa no acelerador. A partir daí, é um videoclipe tetra-dimensional de crânios explodindo, miolos aprendendo a voar, carros de polícia atrás de você, sinais vermelhos de vergonha. A velha de vestido azul, o traficante de óculos escuros espelhados, a prostituta hiper-horny, o executivo de terno mal-cortado, todos viram upgrade de asfalto sob as rodas da picape. Você deixa a mão direita no volante, estende a esquerda com a Uzi para fora da janela e tabletes de diversão em forma de chumbo e kevlar saltam alegremente para dentro da cabeça, tronco e membros dos pedestres. Liberty City logo está apinhada de carros de polícia. Que não conseguem pegar você. BMWs do FBI. Não conseguem pegar você. Tanques do exército. Não conseguem. Você é o inimigo público número -1, o nêmesis definitivo.

Seria divertido, mas um pouco arriscado fazer isso na vida real. É aí que entra o magnífico Grand Theft Auto 3, a nova e desgraçadamente genial versão do simulador de bandidagem da Rockstar Games. Se os primeiros dois GTA eram legais, este é simplesmente perfeito. GTA 3 é o ano zero dos games eletrônicos, e não sou só eu que digo isso, mas sites respeitados como www.pcgamer.com. GTA 3 é o primeiro da série totalmente em 3D (os dois anteriores tinham um ângulo de visão superior, ou seja, o jogador via tudo de cima, como se voasse sobre a cidade). Dessa vez, nada de estética arcade. A versão renderizada de Liberty City, a cidade “onde o único palavrão é ‘esperança'”, tem nada menos que 40 quilômetros virtuais para ser explorada (e não estou usando uma figura de linguagem com essa palavra). Pela primeira vez na história dos games, é possível percorrer o mapa inteiro, na direção que o jogador quiser e quando bem entender, sem limitações de plot ou territórios não-renderizados. Perfeito.
E a trilha é fantástica: hip hop, house, techno e ópera (!!) compostos exclusivamente para as estações de rádio dos carros roubados. Nunca foi tão fácil e divertido roubar um carro. E ainda nem falei sobre as maravilhas de andar (mesmo a pé) pela cidade, carregando apenas um taco de beisebol e uma 45. Ou a epifania que é subir no telhado de um prédio e equacionar dezenas de pedestres e alguns coquetéis molotov. Por enquanto, só para Playstation 2, mas em abril sai a versão para PC (que, segundo boatos, deverá ter gráficos melhores que os da versão PS2). Deve ser proibido no Brasil, como os dois primeiros, mas tudo bem. GTA 3 é que nem ácido: se for legalizado, estraga.

Há um ano, quando vi as primeiras telas e li sobre como seria a jogabilidade de GTA3, eu disse que o jogo seria um divisor de águas no mundo dos jogos eletrônicos. Ninguém deu atenção, pra variar. Um ano depois, todas as revistas e sites decentes de reviews se renderam ao game: GTA3 foi o “jogo do ano” em quase todas as listas e certamente impõe novos padrões para os próximos títulos, sejam de que gênero e plataforma forem. 

Bom, relutei muito em criar um blog. A esmagadora maioria dos blogs que eu conheço são caixas mal-ajambradas de nonsense e viagens egomaníacas cheias de lavação de roupa pública (ou púbica). Mas um blog talvez possa ser divertido, vejamos. Bom, resumindo, aqui você encontrará minhas opiniões, ações e reações às coisas que eu vejo, sinto, provo, cheiro, bebo, escuto e falo. Vou tentar manter uma atualização decente e postar textos, resenhas, opiniões, achismos, contículos e outros elementos bizarros. Bem-vindos ao mundo estranho da Harper’s Bizarre. 

Oi. Bem-vindos ao meu blog.