Câmara Sombria

Concordo 100% com esse cara nos dois casos e lembro de ter adorado esse texto quando saiu. Aliás, ele toca num ponto chave: a forma como Moore foi tratado pelos outros “criadores” (leia-se regurgitadores do que ele fez) e por boa parte dos “fãs” (leia-se condutores de cadáveres) foi revoltante. Esqueceram a ética na lixeira em prol de poderem ler mais uma historinha medíocre com os mesmos personagens. Foi por esses motivos tb que, na hora de dar uma grana por TPBs ou revistas, passei a mirar somente na Image, Dark Horse, Fantagraphics, Oni Press, IDW, Valiant, Boom, etc. Foda-se Marvel e DC. Gosto dos personagens, mas posso muito bem pegar minhas edições e reler, até pq são bem melhores do que o fanfic oficial que elas lançam hoje.
http://comicsalliance.com/creator-rights-before-watchmen-avengers-moore-kirby/
The Ethical Rot Behind ‘Before Watchmen’ & ‘The Avengers’ [Opinion]
Aliás, esse é um triste efeito colateral dessa explosão do nerd como consumidor mainstream: nerds compram toda e qualquer merda que sair com seus personagens favoritos. Eles não pensam em termos de autores e criadores, como fazem os cinéfilos, leitores de ficção em prosa, etc. Vão atrás do Batman, não importando se é do Miller, do Moore, ou do Chuck Dixon. Debatendo se ele ganha ou não do Lanterna Verde, como se ele fosse uma pessoa real e não uma criação. Como se não dependesse exclusivamente do roteirista ele ganhar (ou não) do Lanterna Verde e etc. Vivem num mundo mágico infantil de consumo descerebrado de Funkos.

Your mother will keep Upper Brook Street

Todo mundo acha que sabe escrever fluxo de consciência, mas, cara, desculpa: não. É uma das coisas mais fáceis e mais difíceis de se fazer em literatura. Fácil pq é quase como sair escrevendo e foda-se. Caneta ou teclados soltos, fluindo, beleza. Difícil pq não é sair escrevendo e foda-se. Rimbaud, João Gilberto Noll, Hilda Hilst, Carl Solomon, Hunter S. Thompson, Peter Milligan, esse pessoal sabe entrar e sair do fluxo e deixar na vala um puta texto. Mas, surpresa: eles são exceção. O risco do seu fluxo virar refluxo é muito grande. Mas, ei, tenta aí. Só não prometo ler após a quinta linha. 😛

Marie, Bast, Anubis e Ganesha

That titanium shell of yours

Sou obrigado a concordar com esta matéria (15 motivos pelos quais Ghost in the Shell é melhor do que o anime original). Sei que estou em minoria aqui e não quero nem começar a tentar mudar a opinião de alguém sobre isso, mas adorei o filme. Muito mais do que previ. Acho inclusive que é um filme importante politicamente nestes tempos em que se baba por Ray Kurzweil e singularidade sem nem mesmo pensar duas vezes. Acho mesmo que esta versão de Ghost in the Shell será redimida daqui a alguns anos, a exemplo do que houve com Blade Runner, também massacrado na estreia e um fracasso de público e crítica nos primeiros anos. A matéria aí embaixo, simples mas direta, explica meus pontos melhor do que tenho tempo e ânimo para fazer agora com este post (fica a promessa de um artigo maior sobre o filme aqui no Hypervoid). Mas alguns pontos são essenciais: a trilha sonora de Curt Mansell, o Kuze interpretado por Michael Pitt, o excelente Beat Takashi, o worldbuilding e os pontos éticos, políticos e sociais, que são muito mais profundos que os do anime e parecem ter passado batido (coniventemente?) pela turba que logo gritou "whitewashing" (e, sim, acho que whitewashing é um problema real e importante, vide o horrendo Deuses do Egito; mas não acho que isso tenha acontecido em GiTS).

Ghost in The Shell: 15 reasons why it's better than the original anime

Quanto a isso, deixo aqui as palavras do diretor do anime original, Mamoru Oshii, sobre a escolha de Scarlett Johansson: “The Major is a cyborg and her physical form is an entirely assumed one. The name ‘Motoko Kusanagi’ and her current body are not her original name and body, so there is no basis for saying that an Asian actress must portray her. Even if her original body were a Japanese one, that would still apply. I believe having Scarlett play Motoko was the best possible casting for this movie. I can only sense a political motive from the people opposing it.”

E tem mais: vejo mil razões e agendas políticas conservadoras para que certos grupos queiram detonar Scarlett Johansson (ou levem inocentes úteis a fazer isso). Afinal ela se sai bem em indies como Ghost World, em filmes de Woody Allen e Sofia Coppola, em blockbusters da Marvel e tb como o principal rosto da nova FC do cinema (Under the Skin, etc). É preciso enxergar além do óbvio nas motivações das coisas.

UPDATE:
Japanese Moviegoers React To Scarlett Johansson's Ghost In The Shell
"She was very cool. I loved her in The Avengers and I wanted to see this because she was in it. If they had done a Japanese live-action version they would have probably cast some silly idol [girl-band member]," said Hirano.

UPDATE 2:

Ghost in the Shell beloved in Japan, despite box office blowout in the West

"On comment in particular stood out, however. THR spoke to a fan identified as Yuki, who thought that the film was better off with a white woman in the lead role, instead of a Japanese one as intended. "I heard people in the U.S. wanted an Asian actress to play her," Yuki told THR. "Would that be OK if she was Asian or Asian-American? Honestly, that would be worse, someone from another Asian country pretending to be Japanese. Better just to make the character white."

"

Are you talking to me?

Vou ser bem direto: se você não lê, o que você escreve tem 100% de chances de ser uma merda.

A misteriosa geração de escritores que não querem ler.

Sem falar que sua bela ideia provavelmente já foi usada centenas de vezes antes. Se quiser escrever, leia.
Se quiser escrever fantasia, leia William Burroughs. Se quiser escrever policial, leia quadrinhos do Moebius. Se quiser escrever literatura "séria", leia Clive Barker. Se quiser escrever horror, leia Hilda Hilst. Saia da porra da zona do conforto. Shake that ass.

Grandma doesn’t live in Wuppertal

Em 2017, num mundo pós-Ray Kurzweill, pós-Deep Learning, pós-acidificação dos oceanos, pós-Tesla e pós-Trump, não tem como Ghost in the Shell deixar dúvidas sobre sua aposta no pró-humano. O cyberpunk oitentista original já era cheio de críticas e ambiguidades em relação às ciborguices e sinergias homem-máquina-IA de forma geral, aliás. O fascínio puramente estético com a infotech, como o dos futuristas pela velocidade, é que mantinha essa crítica mais nos bastidores. Mas uma releitura de Rudy Rucker, John Shirley, Richard Kadrey e Bruce Sterling pode mostrar bem isso, o quanto eles eram cínicos e descrentes quanto a vários daqueles conceitos. Não atire no mensageiro, mas também não copule com a mensagem.

Grandma doesn’t live in Wuppertal, a frase, é de Alice in the Cities, que vi anteontem pela primeira vez. Filme lento, belo, como todo bom road movie que se preza. E Wenders, como Antonioni, Jarmusch e Michael Mann, é um dos maiores mestres dos road movies. Veja no Filmstruck, que é o site que coloca uma cinemateca ou cineclube no seu quarto.

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The road goes ever on and on

Trabalho 9 horas por dia em uma autarquia pública federal, olhando para dois monitores de 23 polegadas e usando um sistema com UI no mínimo dúbia. Nas minhas horas livres faço traduções, de autores como Terry Pratchett, Dan Chaon, etc. Nas horas que restam ainda escrevo minhas coisas (contos, romances e artigos) e faço música, tudo sempre olhando para a tela de um computador. Minha visão, que já não era boa (sou míope e uso óculos desde os 6 anos de idade), está piorando: agora tenho visto cansada tb, o que me obriga a ter um segundo par de óculos, para leitura. Para piorar, apareceram manchas voadoras (mosquinhas) enormes no meu campo de visão, há há uns dez anos. São como poças de óleo flutuando no humor vítreo e muito irritantes.
Outro efeito colateral é que tudo é feito sentado. E a cada dia médicos descobrem novos problemas ligados a quem trabalha sentado por várias horas: de hipertensão a hipertrofia muscular, de obesidade a diabetes.
O resultado disso é que preciso diminuir algo aí. Como quero muito continuar escrevendo contos e romances e ao mesmo tempo meu trabalho como funcionário público é o que paga as minhas contas, as traduções terão que perder espaço. Decidi passar a fazer apenas um romance por ano, ao invés dos 4 ou 5 que eu estava fazendo. Menos grana na conta, mas também mais tempo livre e, claro, mais contos meus por aí. Quero muito mais ser escritor do que tradutor e, como dizem os bretões, something’s got to give.

No dia 19 de fevereiro mudei do Centro do Rio de Janeiro para Visconde de Mauá: a vista da minha janela mudou de Blade Runner para O Hobbit.

Amigo é amigo

Eu sou virginiano, com Marte em Virgem, Cachorro do Metal no Chinês. Sou extremamente fiel aos meus amigos. Muito. E também sou INFP, então continuo sendo (ou me sentindo) um grande amigo de alguém mesmo estando há muito tempo longe, sem ver a pessoa. Sou bom ouvinte, pra mim é uma coisa natural querer ajudar meus amigos, perdôo erros e transformo defeitos alheios em meras idiossincrasias e motivo até de afeto. Tolero vacilos grandes: uma, duas, talvez três vezes. Dou força para os trabalhos dos meus amigos, indico para coisas, compareço aos eventos, tento juntar pessoas (juntei algumas listas de discussão nos anos 90, formando grupos de pessoas que até hoje se falam entre si, trabalham juntas e tal). Não por bondade, mas por achar que é assim que as coisas funcionam.
**MAS**… tem o outro lado de ser isso aí (virginiano, com Marte em Virgem, Cachorro do Metal): se um amigo ou conhecido for realmente babaca, escroto ou vacilar tremendamente comigo, passando daqueles tais limites, cara, desculpa aí, mas ele passa automaticamente a não existir mais. Não é uma questão de guardar rancor, de não perdoar, de não esquecer. É uma questão de esquecer, isso sim, de não ser capaz de me impedir de esquecer que a pessoa existe.
Lembro agora de 4 situações específicas, sem querer que ninguém descubra quem são os falecidos:
1) O cartunista que me pediu para comprar um livro dele porque estava sem grana e, uma semana depois, me xinga pesado no Facebook porque o incluí em uma postagem privada de divulgação da revista que eu edito, a Hyperpulp;
2) A “autora” que me tratava bem e me contratou para fazer a tradução de uma novela, apenas para fingir repetidas vezes que me enviava e-mails de trabalho, inexistentes. A mesma figura que descobri que, ainda antes disso, espalhava para algumas pessoas que nem conheço que eu era “grosseiro com os outros” (isso tendo me encontrado pessoalmente duas vezes).
3) O “amigo” que contratei pessoalmente e de quem assinei a carteira de trabalho quando eu era editor, nos anos 90, apenas para fugir com cara de nojo para um outro canto da livraria quando perguntei, muitos anos depois, se tinha um trabalho de tradução para me indicar. O mesmo que, ao participar de um podcast comigo, fez questão de tentar ridicularizar ou mudar o sentido do que eu falava, fingindo intimidade.
4) O “autor e tradutor” (que eu também conhecia há anos) que encontrei para um café em SP e, mera semana depois, deu uma entrevista para o maior jornal da cidade onde nasci e moro tentando apagar da história um dos meus primeiros e mais elogiados trabalhos de tradução, por pura birra com a editora do livro em questão. E que, semanas depois, voltou a chamar o mesmo livro de “irrelevante” e “menor” em um podcast, chamando-o de “pequena noveleta” (um romance de 360 páginas, que foi indicado ao Stoker Award). E olha que essa história, mais do que as outras, está bem resumida aí.
Nos casos 1, 3 e 4, tratavam-se de pessoas que eu considerava amigas. Olha, eu perdôo você por roubar cem reais meus pra comprar pó (mas não faça isso). Entendo você beber e fazer merda. Mas, olha, não seja traíra ou mal caráter. É feio, o mundo percebe, as pessoas que você engana não serão enganadas por muito tempo, você afunda e quando vê está ali, no maelstrom, a nado, o ralo se aproximando e aquele barulho de ruído branco de filme do William Friedkin à sua volta.
Moral da história: há momentos em que o caminho do meio é a solução; em outros, só o dedo do meio resolve. 😀
(Por favor, não tentem palpitar nos comentários as identidades dos referidos panacas. Isso foi só um exercício de desabafo).

Viagem ao meu habitat natural

Exatamente hoje, 27 de janeiro, este blog faz 15 anos de existência. Ele começou no Blogger BR e de lá pra cá passou por Blogger original, WordPress self-hosted, Movable Type self-hosted, Squarespace e, já há alguns meses, WordPress novamente. Nestas mudanças todas fiz questão de migrar os comentários, numa das vezes a mão, na base do copy/paste.

Uma boa data para mostrar meu estúdio, onde escrevo minhas coisas e crio minhas músicas. Pretendo seguir nesta linha em posts futuros, mostrando minha biblioteca, dando dicas de programas e workflow, etc. Vamos lá:

 

Mesa onde escrevo minhas histórias

São duas escrivaninhas lado a lado, para escrever, editar, fazer música, mexer em vídeo, ver Netflix, jogar games, etc etc. O teclado do Macbook tem iluminação backlit, mas para escrever ou traduzir uso um teclado maior, localizado na parte móvel da escrivaninha, debaixo do tampo. A luminária verde serve para que eu use este teclado externo à noite.

Na tela está o Scrivener, programa que tenho usado para escrever, traduzir, guardar minha pesquisa para o Tarot. Não me imagino mais escrevendo sem ele ou voltando a usar Word. O monitor maior está com a Pandora aberta nesta foto, mas quase nunca escrevo ouvindo música. Dos lados esquerdo e direito do monitor há dois hubs: um hub Thunderbolt para conectar hardware de áudio e um hub USB 3.0 para conectar HDs externos de dados (tenho 2tb de comics, 300 gb de MP3 e 10 gb de ebooks, além de meus samples de áudio e gravações de campo) e de backup (uso o Carbon Copy Cloner para backup semanal do HD interno e do HD externo de dados.

Mesa de equipamento de áudio

A mesa da direita tem parte dos meus instrumentos e equipamento de áudio. A caixa azul sobre o suporte de madeira é um sequenciador Yamaha RM1x, que também funciona como sintetizador. Em cima dele está uma mesinha de som Behring, para ligar todos os cabos de áudio e a saída de áudio do Macbook. Dali vai tudo para as caixas de som (que não aparecem nesta foto).

Ao lado do Yamaha está uma Roland MC-303 Groovebox (sim, igual a usada pela Sacerdotisa em O Caminho do Louco): primeiro instrumento que comprei, ainda em 1998. É uma drum machine e sequencer, mas também tem bons sons de pads e linhas de baixo. Em cima da Yamaha estão dois monstrinhos criados pelo meu grande amigo Paulo Santos, o Paolo Head (que é a base para o personagem Paulo, índio que aparece na primeira parte de O Caminho do Louco).

A pequena caixa cinza e azul no canto esquerdo da mesa é a minha interface de áudio, que funciona como a placa de som do Macbook quando estou trabalhando com música ou vídeo. É uma Presonus, com entradas MIDI e para microfone e guitarra. Ah, a sacola roxa com um desenho dos chakras é a minha bolsinha de tarô: ali dentro está meu baralho favorito, o Tarô Mitológico; e também uma toalha (roxa) para jogar.

Embaixo da bancada de madeira, mais ao fundo, está meu sampler Korg Electribe ES-1, que comprei em 1999. Usa cartões de memória que não são mais fabricados e seu som meio em baixa resolução é ótimo para hip-hop ou jungle.

Debaixo do tampo de madeira, na parte móvel da escrivaninha, estão um controlador Phat*Boy, da Keyfax, que é ótimo para plugar na MC-303 e deixar o som dela mais parrudo, ácido e analógico; um toy synth mega portátil a pilha Korg Monotron; e dois Korg Volca, o Beats e o Bass. Em um post futuro vou detalhar melhor meu workflow de áudio e então mostrar fotos destas coisas todas.

Visão geral das duas mesas

Nesta foto é possível ver melhor a lógica de funcionamento das duas mesas juntas. Sobre a mesa da esquerda há um nicho branco que serve como prateleira para o receiver e os monitores de áudio.

Detalhe do nicho

No centro do nicho guardo coisas como minha carteira, meu porta-anéis, meus óculos escuros e alguns enfeites: cartões, um dos meus Ganeshas, flyers (atrás do Ganesha está o flyer de uma exposição da minha namorada, Leandra Lambert).

Outro detalhe do nicho

A caneca do Super Mario guarda meus lápis e canetas. Também estão por ali meu cartão da Siouxsie Sioux, uma foto da minha viagem com a Leandra a Buenos Aires e outros objetos. No canto esquerdo há uma miniatura de um tigre siberiano, lembrança de nossa visita ao sensacional Parc des Felins. O cartão com a figura de escafandro e nuvem azul ao centro é uma arte gráfica com uma frase de um dos meus autores favoritos, J.R.R. Tolkien: “Not all those who wander are lost” (o que, para mim, une duas correntes literárias na época consideradas separadas e praticamente díspares: os Inklings e os Beatniks.

Bom, é isso. Já passei incontáveis noites aí neste estúdio escrevendo capítulos de Guerras do Tarot, contos como Hiriburu, criando beats e samples para o Chip Totec e o Terra Incognita, editando vídeos para trabalhos de arte da Leandra, batendo papo pela web e, sim, escrevendo neste blog. Em próximos posts mostrarei meu estúdio e workflow com mais detalhes, mas antes deveremos dar uma passeada pela minha biblioteca. Cartas na mesa e see ya!

“Death came in like thunder”

Parece que ambient é a trilha do quase morte. Mais epecificamente, cientistas descobriram que esta faixa de ambient drone, de um músico grego de new age dos anos 70, é a que mais se aproxima do som que teria sido ouvido pelas pessoas que passaram pela experiência de quase morte e penetrado naquele tal túnel de luz etc e tal.

Escutem:

Perdão pela imagem.

Bem, de qualquer forma, me pareceu irônico (e, se eu fosse paranoico e pessimista, teria achado também alarmante) que a ambient music tenha ganho força redobrada justamente agora, na esquisitíssima década de 10.

Traduzi hoje 4431 palavras, cerca de nove páginas. É mais ou menos a média diária com a qual me sinto confortável, em termos de tradução, para este livro e tendo que compartilhar as traduções com meu day job diário. Muito menos do que isso é pouco e mais do que isso fica mais cansativo do que eu gostaria.

Mais de 30 pessoas demitidas do jornal O Dia, onde trabalhei entre 1999 e 2001, como sub-editor do caderno semanal de informática e tecnologia (e onde mantive ainda uma coluna sobre games). mais uma da série de demissões em massa recentes que têm assolado o jornalismo impresso. Entendo que o jornalismo impresso não tenha meios de competir com o imediatismo da Internet, mas continua sendo algo triste, ainda que o taoista em mim ache tudo isso normal. Mais triste ainda por ser no Brasil, onde os motivos da crise passam ainda por analfabetismo funcional, crença na capacidade do Facebook de mostrar notícias e multiplicação de blogs escritos por pessoas que não sabem concatenar as frases com seus respectivos e supostos (e bota supostos nisso) raciocínios.

De certa forma me deu um alívio por ter sido demitido ainda em 2001, quando o jornalismo ainda existia, em seus estertores. Fiquei amargos, longos e traumáticos cinco anos e meio fazendo frilas mal pagos/procurado emprego, mas foi o “estímulo” final para que eu abandonasse de vez essa profissão, da qual nunca realmente gostei. Tendo acontecido em 2001, fez com que eu tivesse tempo para virar funcionário público, ter estabilidade e escapar dessas demissões recentes, muito mais avassaladoras e sem luz no fim do túnel, pois agora nem há para onde correr.

OUVINDO: The Handsome Family.

LENDO: O livro que estou traduzindo.

VENDO: O ocasional episódio (que dá nome a este post) da ótima série policial Longmire.

“good morning, Dr. Chandra”

Photo by Alex mandarino - Buenos Aires, 2007
Photo by Alex mandarino – Buenos Aires, 2007

Uma das leituras rápidas mais prazerosas que venho tenho nos últimos meses é a newsletter de Warren Ellis, Orbital Operations. Seu blog matinal Morning, Computer também funciona como uma quase newsletter, via feed. Tenho grande carinho pelo modelo newsletter, que parece estar voltando. Além de Ellis, tenho assinado novas newsletters de diversos outros escritores, quadrinistas, artistas, digeratis, tarólogos et al, a maioria muito interessantes. Agora é a vez do Tor.com lançar a sua, abordando novos lançamentos e sua iniciativa de lançar “novelas e romances curtos”.

As duas tendências, aliás, seguem motivações parecidas, ainda que partindo de pontos opostos. A volta do modelo newsletter reflete um cansaço do constante zapping involuntário de Facebitter e Twook, um desejo de imergir por alguns minutos em alguma coisa que VOCÊ escolheu e não é imposta de cima para baixo por um algoritmo maluco que apenas emula – e mal – a sua escolha. Uma fuga do extremo horizontalismo das redes sociais, que abarcam a tudo e a todos, mas com a profundidade de uma folha de papel manteiga.

Já a aposta (na verdade também uma volta) em novelas e romances curtos reflete um esforço por descobrir brechas temporais para a leitura de ficção em realidades cotidianas cada vez mais robotizadas.

Nunca vi, aliás, tantas matérias apontando os malefícios do trabalho. Defensores do trabalho em pé dizem que passar horas seguidas sentado é tão prejudicial à saúde quanto ser fumante. E aí defendem pausas para que se fique de pé e mesas para trabalho em pé (que, por bem intencionadas que sejam, me lembram as rodinhas de hamsters).

Da mesma forma, diversos artigos falam dos malefícios da falta de sono: obesidade, perda de tesão, memória, etc. E, claro, as pessoas ficam mais acordadas porque estão trabalhando mais em casa ou porque estão usando o tempo de sono para ter alguma migalha de leisure time. Tudo muito bom e bonito, mas nunca se aponta o x da questão, nunca se estende o leisure finger (epa) na direção da ferida escancarada: foda-se o trabalho, todos deveríamos trabalhar MENOS.

Seremos vistos no futuro como a geração das trevas do trabalho.

OUVINDO: Stateside Sessions: Drum & Bass Vol. 1 – Mixed by Sage – Excelente compilação de jungle pesadão.

LENDO: O ótimo site literaurapolicial.com