Grandma doesn’t live in Wuppertal

Em 2017, num mundo pós-Ray Kurzweill, pós-Deep Learning, pós-acidificação dos oceanos, pós-Tesla e pós-Trump, não tem como Ghost in the Shell deixar dúvidas sobre sua aposta no pró-humano. O cyberpunk oitentista original já era cheio de críticas e ambiguidades em relação às ciborguices e sinergias homem-máquina-IA de forma geral, aliás. O fascínio puramente estético com a infotech, como o dos futuristas pela velocidade, é que mantinha essa crítica mais nos bastidores. Mas uma releitura de Rudy Rucker, John Shirley, Richard Kadrey e Bruce Sterling pode mostrar bem isso, o quanto eles eram cínicos e descrentes quanto a vários daqueles conceitos. Não atire no mensageiro, mas também não copule com a mensagem.

Grandma doesn’t live in Wuppertal, a frase, é de Alice in the Cities, que vi anteontem pela primeira vez. Filme lento, belo, como todo bom road movie que se preza. E Wenders, como Antonioni, Jarmusch e Michael Mann, é um dos maiores mestres dos road movies. Veja no Filmstruck, que é o site que coloca uma cinemateca ou cineclube no seu quarto.

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Manda nudes

A quantidade de avistamentos de OVNIs diminuiu muito desde os anos 80 e me ocorreu que a culpa pode ser disso aqui:

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Apioneernasa

O tal disco dourado que a NASA enviou para o espaço em 1977, contendo infos sobre a raça humana, como somos, o que fazemos, nossa arte, nossa ciência, etc.
É a própria definição de um tiro no escuro. Uma sugestão de que, ei, talvez isso caia nas mãos de alguém de uma raça alienígena inteligente e, ei, quem sabe essa raça sabe tocar videodiscos.
São muitas as variáveis: a existência de uma raça alienígena inteligente; a sorte de um membro inteligente (e não uma besta quadrada) desta raça encontrar esse treco; a sorte maior ainda deles saberem como usar um videodisco. Diabos, é um VIDEODISCO. Se isso caísse aqui no quintal da minha casa eu não teria como tocar.
E fica ainda o ponto mais importante: se você recebesse pelo correio uma caixa com nudes de algumas pessoas e junto um mapa mostrando como chegar na casa delas, você iria??

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Fantasma na Concha

Acabei de ver Ghost in the Shell, graças ao convite do meu amigo Rafael Luppi Monteiro e do pessoal do Nível Épico. Para minha feliz surpresa não tem ritmo de blockbuster. É lentão, cheio de climões, muito bonito visualmente e com uma trilha sonora sensacional (do Clint Mansell). Vou até rever. Excelente uso do 3D, aliás. Vale a pena ver em 3D. Gostei muito da estética mezzo Blade Runner (de onde o anime original tirou toda sua influência cyberpunk, aliás) e mezzo futuro distópico colorido, asséptico e pós-verdade. E o melhor de tudo: assim como os melhores romances cyber, o filme é anti-ciborgies e AI e totalmente pró-humano. Não apenas no subtexto, mas no texto mesmo. Recomendo.
Scarlett Johansson é uma das melhores atrizes do cinema de FC recente, aliás: este GitS, Lucy e o maravilhoso Under the Skin.

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The small tribe

Warren Ellis, que acompanho desde o final dos anos 90 e tem escrito cada vez melhor, compartilha ótimos insights sobre os rumos sociais que a Internet tomou e seu respectivo – e necessário – backlash. Também tenho adorado newsletters:

“I personally wish I could start nominating or commanding people to start newsletters. This is the part of internet2015 I have really enjoyed: people writing open letters. Newsletters are on their way to being professionalised the way blogs were, as I think I’ve said, and, who knows, maybe 2016 will be significantly less fun in the newsletter space.  But there are lots of little bits of joy out there right now.

I don’t get much email. I like newsletters.”

E esta parte que adoro:

“in a more fractionated and less operable digital-social world, maybe newslettering is the fallback into a functional tribal living. People used to complain about “walled garden” technologies that weren’t on the open web, but, ultimately, people like walled gardens. Choosing to tend a small communal garden is preferable to being pissed on for daring to walk outside, or letting just anybody in and dealing with them pouring flat lager on your bushes and shitting in the cabbages.”

Extraído da genial newsletter de Ellis, Orbital Operations.

Squarespace – A Better Web Awaits

Really dig this new Squarespace ad. Most of the web indeed morphed into a freak “social” show.

The Mac: 30 Years Tonight

The Mac is completing 30 years since its first iteration in 1984. This site has a great interview with some of the men behind Apple: Phil Schiller, Craig Federighi and Bud Tribble (who “was there” in 1984). Some of the best excerpts:

Federighi: “Sometimes you want a large display, with many different windows open, and sometimes you just want to lay back on the couch or are standing at the bus stop. “There’s a natural form factor that drives the optimal experience for each of those things. And I think what we are focused on is delivering the tailored, optimal experience for those kinds of ways that you work, without trying to take a one-size-fits-all solution to it.”

Schiller: (***) in some ways the success of the iPhone and iPad takes some of the pressure off and “gives us the freedom to go even further on the Mac.” Now the Mac doesn’t have to be all things to all people.

Without the Mac, graphic design, music, films and even literature wouldn’t be the way they are today.  Worth your reading.

Rushkoff e o presentismo

Este artigo do Douglas Rushkoff e seu mais recente livro, Present Shock, me fizeram pensar sobre esse conceito do presentismo. Lembro de um período entre 1995 e 1999 em que a Internet e a cybercultura (termo, aliás, que morreu mais ou menos após essa data por pura imanência) exalavam otimismo e renovação. Na época eu atuava como jornalista da área de tecnologia, editando a revista Conecta, uma tentativa de criar uma Wired brasileira – apenas para perceber que “Wired” e “brasileira” eram excludentes – e, mais tarde, um caderno semanal de informática e tech. A Internet ainda não era sinônimo de web, já que a world wide web ainda era apenas uma parte da rede. A parte mais proeminente, claro, mas uma parte. Esse mundo de usenet, fóruns, blogs, vlogs, home pages (lembram desse conceito?), IRC e ICQ ficou para trás com a chegada em cena de Google e Facebook e de novas tentativas de cercar a web em murinhos corporativos, nos moldes da antiga AOL. E, dessa vez, de forma bem-sucedida, infelizmente. Para muita gente, a web é o Facebook e a home page por excelência é o Google, portal para a biblioteca de Babel (fish) à moda Skynet.

A web 2.0 não trouxe apenas novas formas de interatividade e aplicativos oriundos da nuvem, mas também uma hiperconectividade que tenta puxar assunto com a gente a cada segundo. Como diz Rushkoff em seu artigo, a hiperconexão faz com que a gente sinta cada solavanco da estrada. Eu mesmo sinto isso. Acompanho posts, newsfeeds, blogs, tweets. Se não fosse assim, teria visto esse post do Rushkoff? Teria imergido nesse zeitgeist e, assim, sido capaz de tentar escrever sobre ele? Ignorance is bliss?

Sentir e reagir a cada solavanco na estrada é agir como o mapa em tamanho real do conto de Borges. Hiper-ultra-detalhista, mas de total impraticidade. A realidade é substituída por um construto emulador de realidade, que a incorpora sem ser parte dela.

Antes de apreender os fatos, de sabermos o que aconteceu, todos nós já temos opiniões formadas, instantaneamente. Dessa forma, o hiperacesso a um mundo informatizado, o excesso de informações e dados, leva a uma reação similar à de um mundo primitivo, ignorante, preconceituoso e religioso. O excesso e a falta nublam os fatos, restando no prato apenas as migalhas do achismo e, agora, do achismo imediato.

Os processo decisórios de gabinete se tornam mais secretos ainda, com passos importantes sendo tomados longe dos olhos do público. Até o final do século XX, a opinião pública acompanhava fatos, ações, reações, emitindo (ou não) opiniões abalizadas (ou não) ao longo deste caminho. Agora as opiniões são processadas e emitidas quase paralelamente aos fatos. Isso evapora rapidamente o zeitgeist investigativo e, quando afinal chega o momento em que se tomam decisões oficiais, o presentismo já fez o público mudar a atenção para outro meme e assim as decisões acontecem em silêncio, sem despertar interesse como nas fases iniciais logo após o fato. Nesse aspecto, o presentismo mais uma vez aproxima a reação da população ao de uma aldeia medieval feudal: decisões de gabinete, à revelia. Interesses estreitos e efêmeros.

A vida cotidiana nos priva de tempo de lazer, de tempo fluindo. Temos tempo picotado, post-its cronais que se substituem infinitamente, tweets, sms, likes, mails, pins. O anseio por um tempo perene, amplo, se mistura ao grito primal que clama mais uma vez pela floresta perdida, seja física ou mental. Essa necessidade do perene e do claramente arquitetônico dão origem a formas narrativas não centradas em protagonistas, mas em clãs, onde personagens que morrem não trazem o fim da história, mas são substituíveis. Mundos abertos onde a floresta, o mapa, a cidade, o reino, a planta do prédio são o personagem: Game of Thrones, Lost, World of Warcraft, universos como os da Marvel – que agora, não por acaso, chegam ao cinema -, os reality shows. Perenes, sem fim, mundos imersíveis. Roletas que não param, não importa que números apareçam, se predomina negro ou vermelho e se jogadores são expulsos da rodada: o mundo permanece. Algo essential em tempos quase-apocalípticos, nem que seja um mundo ficcional. Mas Baudrillard já não nos deu permissão para relaxar e gozar nesse construto?

É um mundo sempre presente, nos dois sentidos do termo: o espacial e o temporal. E é um mundo interativo e iterativo: nada é definitivo, nada é novo ou velho, é apenas presente. Tudo é beta, tudo deve trazer em seu bojo a perturbadora mas reconfortante possibilidade de eterna renovação, de varrer para longe os pequenos detalhes errados, os enganos, sem parar o fluxo, seguindo sempre em frente em uma peregrinação rumo a um estado de perfeição que nunca chega, que nunca pode – e nem deve – chegar. Não queremos isso, na verdade. Daí a iteração, o eterno recomeçar. Uma pedra rolada montanha acima, mas em uma montanha perfeitamente plana, planície que se faz de montanha.

Ironicamente, o presentismo e a mera ilusão de mudança acontecem em um momento em que amamos e idolatramos o mito religioso do crescimento econômico. Crescimento esse que soma e subtrai, nas mesmas iterações ilusórias que se passam por narrativa. E em nova ironia, é o mesmo presentismo nascido da tecnologia que talvez nos (e)leve para o patamar do não-desejo, do conceito budista do foco no presente.

Ou não. Até a próxima iteração, talvez.

Philips Exits Consumer Electronics

via WSJ:

In the 1930s, Philips was the world’s biggest supplier of radios. The Dutch company invented the audio cassette in 1963, made the first videocassette recorder in 1972, and launched the compact disc in 1983. But Philips struggled to make the most of its inventions, most notoriously by losing a battle for the dominant videotape standard to Japan’s VHS in the 1970s and 1980s before failing to anticipate today’s disc-free, digital-entertainment era dominated by downloaded and streamed entertainment via the Internet.

 

Ironically, their first device (the radio) wasn’t dependent on physical media. The company that grew up with the airwaves wasn’t able to “get” the new reality of streaming and downloading.

 

Quirky Space Bar Desk Organizer with USB Ports

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