Entitled

Uma palavra que define bem o brasileiro não é uma palavra em português: “entitled”. Sem correlato na nossa língua. Significa a pessoa que “se acha no direito de” ou, como bem sabem os certos, “se acha”. Não haver sinônimo por aqui é curioso. Reza o clichê que os esquimós teriam diversas palavras para “neve”, o que é compreensível: o ser humano tem essa tendência esquisita de dar nomes às coisas e coisas muito comuns e abundantes ganham vários nomes. A diferença é que o esquimó, obviamente, tem consciência da neve. O brasileiro não tem consciência de seu “entitlement”. Daí a ausência de uma denominação para esse comportamento em português.

A turma que “se acha” é enorme, variada. Tem gente que se acha no direito de andar em fila na calçada, esbarrando nas pessoas; de avançar sinal vermelho e acelerar na direção do pedestre; de humilhar mulheres que passam; de roubar dinheiro público; de ocupar espaço público; e de todos os outros males que conhecemos tão bem e reconhecemos tão pouco.
O direito alheio, por outro lado, nunca é reconhecido. O direito de espaço público, porque ainda “se acha” por aqui que o “público” é uma espécie de privado coletivo. O direito à tristeza, à introversão, à diferença, a não gostar de culturas eternamente “de raiz”, de futebol, de carnaval. O direito de ser diferente, minimamente que seja.

“Entitled” se traduz, não corretamente e nem diretamente, por arrogância, afronta, complexo de inferioridade mal metamorfoseado em complexo de superioridade. Outros povos e culturas têm seus valores calcados na educação, no respeito mínimo ao próximo (nem que seja sustentado por leis e multas), no respeito ao espaço alheio, às opções plurais, ao outro. Nossa colonização nos legou o avesso disso tudo. Principalmente no Rio, que sofre por já ter sido capital do império e da república e continua sofrendo por ser nossa capital midiática, é bem visível um comportamento de “entitlement”. Porque o respeito e a educação não são a base da sociedade, mas sim a hierarquia monárquica, aristocrática. Em uma sociedade em que as pessoas têm mais direitos dependendo de quem elas são ou conhecem, o rumo natural das coisas é que todos passem a fingir que são ou conhecem “alguém”. Todos os rios aristocráticos de bananas deságuam no “entitlement”.

O outro efeito colateral da nossa colonização sui generis é a inação. Há o direito de avançar sinal e ouvir música ruim berrando em carros estacionados nas calçadas de madrugada, mas direitos básicos como os de reclamar e protestar não são reconhecidos. Afinal, quem reclama só reclama porque não “é” nem conhece “alguém”, então com isso demonstra sua posição de fraqueza na gangorra, que – claro – por essa lógica da entitlezação (calma, xenófobos) não pode e nem deve ser respeitada. Vem daí também nosso apreço pelos militares, figuras que nesse imaginário órfão de uma monarquia corrupta preenche as lacunas deixadas com seu anormal apreço pela hierarquia, pelo vinco nas calças e pelas árvores pintadas de branco. No mundo militar, quem você é e conhece está estampado no seu peito.

O pior dos efeitos colaterais é o que condiciona o valor do que você faz a todos esses fatores. Não importa se sua banda/livro/festa/filme/tese é boa, importa se seu sobrenome é Silva ou Guinle ou se você mora em Nova Iguaçu ou na Gávea. Distorções espaço-temporais estranhamente preservadas e cultivadas pelos setores supostamente “alternativos” da cultura carioca. Ironicamente, em uma terra onde todos acham que têm todos os direitos possíveis, ninguém tem direito algum. Como comprovam as notícias diárias – há décadas. Há séculos. Na terra do “entitlement” irreconhecido, o que acaba prevalecendo é o nada.

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