Você espera o sinal abrir, atravessa a rua e, quando chega no meio da faixa de pedestres, como se a capa de Abbey Road tivesse sido criada pelo Tarantino, tira uma Uzi das costas da jaqueta e encosta na cabeça do motorista da picape, aos gritos de “sai do carro”. Ele sai, você toma seu lugar e pisa no acelerador. A partir daí, é um videoclipe tetra-dimensional de crânios explodindo, miolos aprendendo a voar, carros de polícia atrás de você, sinais vermelhos de vergonha. A velha de vestido azul, o traficante de óculos escuros espelhados, a prostituta hiper-horny, o executivo de terno mal-cortado, todos viram upgrade de asfalto sob as rodas da picape. Você deixa a mão direita no volante, estende a esquerda com a Uzi para fora da janela e tabletes de diversão em forma de chumbo e kevlar saltam alegremente para dentro da cabeça, tronco e membros dos pedestres. Liberty City logo está apinhada de carros de polícia. Que não conseguem pegar você. BMWs do FBI. Não conseguem pegar você. Tanques do exército. Não conseguem. Você é o inimigo público número -1, o nêmesis definitivo.

Seria divertido, mas um pouco arriscado fazer isso na vida real. É aí que entra o magnífico Grand Theft Auto 3, a nova e desgraçadamente genial versão do simulador de bandidagem da Rockstar Games. Se os primeiros dois GTA eram legais, este é simplesmente perfeito. GTA 3 é o ano zero dos games eletrônicos, e não sou só eu que digo isso, mas sites respeitados como www.pcgamer.com. GTA 3 é o primeiro da série totalmente em 3D (os dois anteriores tinham um ângulo de visão superior, ou seja, o jogador via tudo de cima, como se voasse sobre a cidade). Dessa vez, nada de estética arcade. A versão renderizada de Liberty City, a cidade “onde o único palavrão é ‘esperança'”, tem nada menos que 40 quilômetros virtuais para ser explorada (e não estou usando uma figura de linguagem com essa palavra). Pela primeira vez na história dos games, é possível percorrer o mapa inteiro, na direção que o jogador quiser e quando bem entender, sem limitações de plot ou territórios não-renderizados. Perfeito.
E a trilha é fantástica: hip hop, house, techno e ópera (!!) compostos exclusivamente para as estações de rádio dos carros roubados. Nunca foi tão fácil e divertido roubar um carro. E ainda nem falei sobre as maravilhas de andar (mesmo a pé) pela cidade, carregando apenas um taco de beisebol e uma 45. Ou a epifania que é subir no telhado de um prédio e equacionar dezenas de pedestres e alguns coquetéis molotov. Por enquanto, só para Playstation 2, mas em abril sai a versão para PC (que, segundo boatos, deverá ter gráficos melhores que os da versão PS2). Deve ser proibido no Brasil, como os dois primeiros, mas tudo bem. GTA 3 é que nem ácido: se for legalizado, estraga.

Há um ano, quando vi as primeiras telas e li sobre como seria a jogabilidade de GTA3, eu disse que o jogo seria um divisor de águas no mundo dos jogos eletrônicos. Ninguém deu atenção, pra variar. Um ano depois, todas as revistas e sites decentes de reviews se renderam ao game: GTA3 foi o “jogo do ano” em quase todas as listas e certamente impõe novos padrões para os próximos títulos, sejam de que gênero e plataforma forem. 

Bom, relutei muito em criar um blog. A esmagadora maioria dos blogs que eu conheço são caixas mal-ajambradas de nonsense e viagens egomaníacas cheias de lavação de roupa pública (ou púbica). Mas um blog talvez possa ser divertido, vejamos. Bom, resumindo, aqui você encontrará minhas opiniões, ações e reações às coisas que eu vejo, sinto, provo, cheiro, bebo, escuto e falo. Vou tentar manter uma atualização decente e postar textos, resenhas, opiniões, achismos, contículos e outros elementos bizarros. Bem-vindos ao mundo estranho da Harper’s Bizarre. 

Oi. Bem-vindos ao meu blog.