Rushkoff e o presentismo

Este artigo do Douglas Rushkoff e seu mais recente livro, Present Shock, me fizeram pensar sobre esse conceito do presentismo. Lembro de um período entre 1995 e 1999 em que a Internet e a cybercultura (termo, aliás, que morreu mais ou menos após essa data por pura imanência) exalavam otimismo e renovação. Na época eu atuava como jornalista da área de tecnologia, editando a revista Conecta, uma tentativa de criar uma Wired brasileira – apenas para perceber que “Wired” e “brasileira” eram excludentes – e, mais tarde, um caderno semanal de informática e tech. A Internet ainda não era sinônimo de web, já que a world wide web ainda era apenas uma parte da rede. A parte mais proeminente, claro, mas uma parte. Esse mundo de usenet, fóruns, blogs, vlogs, home pages (lembram desse conceito?), IRC e ICQ ficou para trás com a chegada em cena de Google e Facebook e de novas tentativas de cercar a web em murinhos corporativos, nos moldes da antiga AOL. E, dessa vez, de forma bem-sucedida, infelizmente. Para muita gente, a web é o Facebook e a home page por excelência é o Google, portal para a biblioteca de Babel (fish) à moda Skynet.

A web 2.0 não trouxe apenas novas formas de interatividade e aplicativos oriundos da nuvem, mas também uma hiperconectividade que tenta puxar assunto com a gente a cada segundo. Como diz Rushkoff em seu artigo, a hiperconexão faz com que a gente sinta cada solavanco da estrada. Eu mesmo sinto isso. Acompanho posts, newsfeeds, blogs, tweets. Se não fosse assim, teria visto esse post do Rushkoff? Teria imergido nesse zeitgeist e, assim, sido capaz de tentar escrever sobre ele? Ignorance is bliss?

Sentir e reagir a cada solavanco na estrada é agir como o mapa em tamanho real do conto de Borges. Hiper-ultra-detalhista, mas de total impraticidade. A realidade é substituída por um construto emulador de realidade, que a incorpora sem ser parte dela.

Antes de apreender os fatos, de sabermos o que aconteceu, todos nós já temos opiniões formadas, instantaneamente. Dessa forma, o hiperacesso a um mundo informatizado, o excesso de informações e dados, leva a uma reação similar à de um mundo primitivo, ignorante, preconceituoso e religioso. O excesso e a falta nublam os fatos, restando no prato apenas as migalhas do achismo e, agora, do achismo imediato.

Os processo decisórios de gabinete se tornam mais secretos ainda, com passos importantes sendo tomados longe dos olhos do público. Até o final do século XX, a opinião pública acompanhava fatos, ações, reações, emitindo (ou não) opiniões abalizadas (ou não) ao longo deste caminho. Agora as opiniões são processadas e emitidas quase paralelamente aos fatos. Isso evapora rapidamente o zeitgeist investigativo e, quando afinal chega o momento em que se tomam decisões oficiais, o presentismo já fez o público mudar a atenção para outro meme e assim as decisões acontecem em silêncio, sem despertar interesse como nas fases iniciais logo após o fato. Nesse aspecto, o presentismo mais uma vez aproxima a reação da população ao de uma aldeia medieval feudal: decisões de gabinete, à revelia. Interesses estreitos e efêmeros.

A vida cotidiana nos priva de tempo de lazer, de tempo fluindo. Temos tempo picotado, post-its cronais que se substituem infinitamente, tweets, sms, likes, mails, pins. O anseio por um tempo perene, amplo, se mistura ao grito primal que clama mais uma vez pela floresta perdida, seja física ou mental. Essa necessidade do perene e do claramente arquitetônico dão origem a formas narrativas não centradas em protagonistas, mas em clãs, onde personagens que morrem não trazem o fim da história, mas são substituíveis. Mundos abertos onde a floresta, o mapa, a cidade, o reino, a planta do prédio são o personagem: Game of Thrones, Lost, World of Warcraft, universos como os da Marvel – que agora, não por acaso, chegam ao cinema -, os reality shows. Perenes, sem fim, mundos imersíveis. Roletas que não param, não importa que números apareçam, se predomina negro ou vermelho e se jogadores são expulsos da rodada: o mundo permanece. Algo essential em tempos quase-apocalípticos, nem que seja um mundo ficcional. Mas Baudrillard já não nos deu permissão para relaxar e gozar nesse construto?

É um mundo sempre presente, nos dois sentidos do termo: o espacial e o temporal. E é um mundo interativo e iterativo: nada é definitivo, nada é novo ou velho, é apenas presente. Tudo é beta, tudo deve trazer em seu bojo a perturbadora mas reconfortante possibilidade de eterna renovação, de varrer para longe os pequenos detalhes errados, os enganos, sem parar o fluxo, seguindo sempre em frente em uma peregrinação rumo a um estado de perfeição que nunca chega, que nunca pode – e nem deve – chegar. Não queremos isso, na verdade. Daí a iteração, o eterno recomeçar. Uma pedra rolada montanha acima, mas em uma montanha perfeitamente plana, planície que se faz de montanha.

Ironicamente, o presentismo e a mera ilusão de mudança acontecem em um momento em que amamos e idolatramos o mito religioso do crescimento econômico. Crescimento esse que soma e subtrai, nas mesmas iterações ilusórias que se passam por narrativa. E em nova ironia, é o mesmo presentismo nascido da tecnologia que talvez nos (e)leve para o patamar do não-desejo, do conceito budista do foco no presente.

Ou não. Até a próxima iteração, talvez.

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