Stan Lee, rei da historinha

Stan Lee não está mais entre nós. É uma sensação esquisita. Assim como com David Bowie, eu tinha a sensação de que Stan Lee não mais morreria. Ficaria sendo publicado nos layers da vida, autorretconeando-se. Lee e a Marvel foram muito importantes para mim. A morte de Stan me abalou mais do que eu esperava.
Eu aprendi a ler com a Marvel. Com a Marvel e minha mãe, que, munida do alto de sua paciência materna, lia para mim os quadrinhos da Marvel, em casa, ainda antes de eu entrar para a escola e saber ler. Ela queria que eu lesse quadrinhos da Disney – e também os lia para mim -, mas depois de ver as capas da Marvel na banca a coisa mudou. Eu queria que ela lesse aquilo ali. Apontava para a revista pendurada na lateral da banca e pedia. Insistia.
O primeiro quadrinho Marvel que eu li (ou melhor, minha mãe leu para mim) foi um do Hulk, onde ele encontrava Ka-Zar, o senhor da Terra Selvagem. A tal terra era uma região da Antártida onde ainda permaneciam um clima tropical, dinossauros e tribos selvagens de homens primitivos. Ka-Zar montava Zabu, um tigre dentes-de-sabre. Encarava o Hulk e depois juntos lidavam com um gigante de pedra. Eu tinha dois anos e meio de idade e fiquei impressionado. Com tudo. Hulk. Ka-Zar. Zabu. Dinossauros. Gigante de pedra. O sensacional logotipo do Hulk na época, todo feito de blocos de pedra. Os desenhos eram de Herb Trimpe, então arte-finalizado pelo genial John Severin. Mas tudo, tudo aquilo era Stan Lee.

Aprendi a ler com a minha mãe, com a Marvel, o Hulk e Stan Lee. Eu pedia que ela passasse o dedo indicador por sob os balões à medida em que lia, para que eu soubesse aonde ela estava e para qual quadrinho olhar. Pedia que ela lesse as onomatopeias. E, um belo dia, reclamei que ela não tinha lido um dos recordatórios. Ela percebeu que eu tinha aprendido a ler. Um ano depois, quando entrei para o maternal, reclamei que não queria mexer com massinha e desenhar. Eu queria ler, escrever, mexer com aquelas letras. Reclamei, chorei, até que semanas depois me tiraram do maternal. Fiquei em casa até ter idade para entrar no Jardim de Infância, com crianças já alfabetizadas.
Isso eu devo à minha mãe.
Mas também a Stan Lee, que criou aquelas histórias absurdas que prenderam a atenção daquela pequena criança complicada de dois anos e meio de idade.
A edição do Hulk em questão era Incredible Hulk 110, mas na época o que era lido para mim era uma edição da Bloch. Pequena, mega colorida, cheia de problemas de tradução e diagramação, como vim a perceber na adolescência. Eu pegava a tesoura e recortava as capas, usando os bonecos de papel dos heróis e vilões como brinquedo em um mundo de imaginação bidimensional, sobre alguma superfície. Mais tarde ganhei os bonecos de vinil da Gulliver dos heróis Marvel, um dos poucos brinquedos e lembranças da infância que ainda guardo. A Marvel cresceu comigo. Quando eu era adolescente, estavam saindo aqui as histórias do Demolidor de Frank Miller, mais adultas, assim como o Mestre do Kung Fu, de Doug Moench e Paul Gulacy. Nos anos 90 foi o Hulk escrito por Peter David. Mas a nata da Marvel para mim ocupa duas décadas: o material publicado pela Marvel americana entre 1966 e 1986. Difícil explicar a importância da Marvel para quem não lia quadrinhos naquela época. A DC, então chamada National, tinha seus bons momentos nos anos 60 e 70 (leia-se Batman e os quadrinhos de guerra, faroeste, horror e FC), mas seus super-heróis eram CHATOS. Eram tiozões de collant que falavam de maneira uniforme. Hal Jordan, Barry Allen, Clark Kent eram todos entediantes. Pareciam guardas de trânsito com poderes. Enquanto isso, na Marvel, o Coisa e o Tocha Humana ficavam brigando, o Hulk destruía tanques e brigava com os militares, o Homem-Aranha era um adolescente sem dinheiro e com mil problemas sociais. A DC parecia um cenário em comparação às cores e climas vibrantes e “reais” da Marvel. E isso tudo era Stan Lee.
Lee, ao criar a Marvel, recriou a DC e os demais quadrinhos, que imitaram seu estilo nas décadas seguintes. Mesmo hoje, quando adoro Moebius, Love and Rockets, Hugo Pratt, Breccia, Angeli, Mike Mignola, Enki Bilal, mestres do quadrinho adulto francês, italiano, argentino, do quadrinho underground, ainda adoro a Marvel dos anos 60, 70 e 80. Compro edições em capa dura, substituindo as revistas que vou vendendo. Releio coisas com outros olhos. Leio pela primeira vez coisas que não foram publicadas aqui ou pintaram por aqui bem adulteradas, com páginas cortadas e tradução resumida. O escopo do que Lee e seus seguidores diretos (como Roy Thomas, Steve Englehart, Gerry Conway, Steve Gerber, Chris Claremont, John Byrne, Doug Moench, Jim Steranko, Frank Miller e outros) criaram é impressionante. Tudo quase virou ruínas nos anos 90, década em que a Marvel faliu financeiramente e também artisticamente, graças aos cafonas desenhistas que depois saíram da Marvel para criar a Image. Mas o que foi feito antes se manteve.

Os quadrinhos da Marvel dos anos 60 foram os primeiros a chegar aos campi das universidades americanas. Mesclando-se ao resto da emergente cultura pop, os estudantes adoravam e comentavam as histórias do Doutor Estranho, Homem-Aranha, Demolidor, Surfista Prateado, Quarteto Fantástico, HUlk. Isso continuou nos anos 70, com séries como Mestre do Kung Fu, A Tumba de Drácula, Conan – o Bárbaro, Luke Cage, Punho de Ferro, X-Men. Nos anos 80, com Cavaleiro da Lua e os quadrinhos creator-owned do selo Epic. A Marvel conseguiu fazer os quadrinhos romperem a barreira do público infantil. Não era mais “coisa de nerd”: figuras como Sid Vicious liam a Marvel, figuras como Peter Murphy, James Brown e tantos outros que ao longo das décadas confessaram seu amor por aquelas séries. A Marvel dos anos 60 a 80 conseguiu um feito único: encontrar aquele sweet spot entre o quadarinho de super-herói, a cultura undergound, o quadrinho alternativo, a pop art e a narrativa literária e cinematográfica. Nada igual veio antes, e poucas coisas parecidas (como a Vertigo dos anos 90) vieram depois. Mas nenhuma delas tinha Stan Lee.
Lee queria ser, como tantos outros de sua geração, o autor do “grande romance americano”. Queria ser um autor literário reconhecido. Para isso guardava seu nome real, Stanley Lieber, enquanto usava a alcunha de Stan Lee para o que considerava seu trabalho menor de editor e roteirista de quadrinhos na Timely, editora de Martin Goodman, nos anos 40 e 50. Com a chegada dos anos 60, os quadrinhos estavam em baixa. Lee conversou certa noite de 1961 com sua mulher, Joan, dizendo que pensava em pedir demissão da Timely para escrever seu romance tão adiado. Joan disse que, já que ele pediria demissão, não tinha nada a perder se passasse a escrever o que bem entendesse naqueles quadrinhos. Que ele fosse ele mesmo, então. Nos dias seguintes, Lee criou o Quarteto Fantástico, a editora mudou de nome para Marvel e houve o big bang de todo um universo.
Stan Lee criou a mitologia dos tempos contemporâneos. E com isso transformou-se em mito. Não escreveu o grande romance americano, mas criou uma cosmogonia. O fato de que centenas de elegias ontem e hoje terminam com a mesma palavra é um legado do poder do que ele criou: Excelsior.

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