Melting

43 graus aqui no Rio hoje.

Que coisa desumana e insuportável.

43 graus aqui no Rio hoje.

Que coisa desumana e insuportável.

Never


Ou, na versão psicodélica:


O mesmo vale para goths e, principalmente, nerds. Never trust a nerd.


Ou, na versão psicodélica:


O mesmo vale para goths e, principalmente, nerds. Never trust a nerd.

Bad Manners

E agora para os maus entendedores:

Percebi duas coisas:

1) Amigos de Internet são fachos de luz, transmitidos entre dois processadores, como mero calor de dados.
Calor se dissipa.

2) O ano que passei sem Internet, em 2002 (acho) foi o ano em que mais produzi. Criei as melhores músicas, escrevi os melhores contos, pensei nos melhores plots, tomei as melhores drogas. A Internet propaga a escravidão à flatulência social. Ao menos o caráter declaradamente social dela. O caráter supostamente individual (como este blog) acaba sendo, paradoxalmente, mais social, mesmo que dependa do social me, myself and I (and now, singing for you tonight, our Lady day… Billie Holiday).

E, não, isso não é triste, for chrissakes. A vida está logo ali, dobrando a esquina. Blog vazio e vida cheia é um estado maior e melhor que o de Internet cheia e vida George Romero.

E não deixem de baixar a magnífica Souvenirs of Raymond, da trilha do cult Girl on a Motorcycle, com os meus tão queridos Marianne Faithfull e Alain Delon. Uma música com esse nome (how cool is that? Souvenirs of Raymond, pensem bem nisso) só pode ser genial e linda. Filme totalmente à frente de seu tempo, dirigido pelo maluco inglês Jack Cardiff em 1968, que simplesmente tem uma cena onde a personagem Rebecca (Marianne, who else?) pensa e diz:

Rebellion is the only thing that keeps you alive!

Sim.

Rebellion is the only thing that keeps you alive.

E agora para os maus entendedores:

Percebi duas coisas:

1) Amigos de Internet são fachos de luz, transmitidos entre dois processadores, como mero calor de dados.
Calor se dissipa.

2) O ano que passei sem Internet, em 2002 (acho) foi o ano em que mais produzi. Criei as melhores músicas, escrevi os melhores contos, pensei nos melhores plots, tomei as melhores drogas. A Internet propaga a escravidão à flatulência social. Ao menos o caráter declaradamente social dela. O caráter supostamente individual (como este blog) acaba sendo, paradoxalmente, mais social, mesmo que dependa do social me, myself and I (and now, singing for you tonight, our Lady day… Billie Holiday).

E, não, isso não é triste, for chrissakes. A vida está logo ali, dobrando a esquina. Blog vazio e vida cheia é um estado maior e melhor que o de Internet cheia e vida George Romero.

E não deixem de baixar a magnífica Souvenirs of Raymond, da trilha do cult Girl on a Motorcycle, com os meus tão queridos Marianne Faithfull e Alain Delon. Uma música com esse nome (how cool is that? Souvenirs of Raymond, pensem bem nisso) só pode ser genial e linda. Filme totalmente à frente de seu tempo, dirigido pelo maluco inglês Jack Cardiff em 1968, que simplesmente tem uma cena onde a personagem Rebecca (Marianne, who else?) pensa e diz:

Rebellion is the only thing that keeps you alive!

Sim.

Rebellion is the only thing that keeps you alive.

Bullit

OK, explicando para os bons entendedores: boa parte do aspecto social da Internet simplesmente… não é social. Quantas pessoas lêem o que é escrito, baixam e escutam o que é produzido? Em um universo amplo, o número de interessados é bastante restrito. Então, fuck it. Pra que se preocupar? Melhor tentar fazer a mesma coisa no “mundo real” (ei, Baudrillard, você aí atrás: cale a boca e vá tomar no cu, para ver se ele é “real”. Ou não. Whatever). No mundo real, os frutos podem ser igualmente não-reais quanto na Internet, mas ao menos são imediatos. São claros. São “gostei/não-gostei”. On/Off. Yes/No. A socialização do mundo das infovias de bytes produz um reflexo contrário? Será possível que, enquanto o “ciberespaço” (cyberpunk’s dead!!!!!!!!) vira pátio social de presídio, com merendas Orkut e cigarros Mengo Yahoogroups, a realidade fica mais binária?

Alt.binary.com. Na vida real, as reações são binárias e imediatas. Quantificáveis. É disso que preciso agora. Rostos. Olhares. Apertos de mão. É a hora de aproveitar que todos os malas e retardados estão online e tomar as ruas novamente. Debaixo da calçada, a praia (traga o filtro solar Guy Debord).

Go, Steve McQueen, go.

OK, explicando para os bons entendedores: boa parte do aspecto social da Internet simplesmente… não é social. Quantas pessoas lêem o que é escrito, baixam e escutam o que é produzido? Em um universo amplo, o número de interessados é bastante restrito. Então, fuck it. Pra que se preocupar? Melhor tentar fazer a mesma coisa no “mundo real” (ei, Baudrillard, você aí atrás: cale a boca e vá tomar no cu, para ver se ele é “real”. Ou não. Whatever). No mundo real, os frutos podem ser igualmente não-reais quanto na Internet, mas ao menos são imediatos. São claros. São “gostei/não-gostei”. On/Off. Yes/No. A socialização do mundo das infovias de bytes produz um reflexo contrário? Será possível que, enquanto o “ciberespaço” (cyberpunk’s dead!!!!!!!!) vira pátio social de presídio, com merendas Orkut e cigarros Mengo Yahoogroups, a realidade fica mais binária?

Alt.binary.com. Na vida real, as reações são binárias e imediatas. Quantificáveis. É disso que preciso agora. Rostos. Olhares. Apertos de mão. É a hora de aproveitar que todos os malas e retardados estão online e tomar as ruas novamente. Debaixo da calçada, a praia (traga o filtro solar Guy Debord).

Go, Steve McQueen, go.

Under My Skin

Após os cinco anos que com certeza foram os piores anos da minha vida (quase cinco anos de desemprego e de freelas estúpidos que pagam pouco); indefinição profissional; namoros conturbados; a morte do meu pai; sumiço de amigos (com alguns deles se revelando perfeitos escrotos interesseiros), finalmente parece que as coisas estão se revertendo. Nada de concreto aconteceu ainda no plano profissional, mas tenho pela primeira vez a sensação de que, sim, caralho, vai acontecer. No plano pessoal, por outro lado, tudo aconteceu. Nas últimas semanas uma das pessoas mais importantes da minha vida apareceu quase que do nada, totalmente de surpresa, mudando tudo. Tudo. A mulher dos seus sonhos não aparece impunemente, you know.

Me sinto como uma cobra mudando de pele. Acabo de ter minha segunda epifania MDMA, desta vez acompanhado. Desfiz pseudo-sigilos e coisinhas escrotas que estavam atrapalhando a minha vida. E, finalmente, parei de dar atenção a situações e condições que não levam a nada, comezinhas que são. No processo, me desliguei de todas as listas de discussão que assinava na Internet, inclusive da minha própria lista (eh, eh, sim , isso é bizarro; ela deixa de se chamar hypervoid e passa a se chamar snoid, em homenagem ao clássico e querido personagem criado pelo Crumb. Quero mais Es, mais Pacha, mais plano físico e xamânico e menos Internet, menos Li(f)e e menos manés.

If They Move, Kill’ Em.

Ah, e parei de fumar, pondo fim a um hábito de quase 17 anos. O preço das cascas de pele de nicotina que caíram nesta mudança foi uma sucessão de chiliques e vacilos abstêmicos de dar medo a Christiane F, lançados injustamente sobre quem menos merecia (sorry, baby). Parece que não há expurgo sem erupção.

Os restos da pele antiga caem pelo caminho, descascados, multicores, como algas em pó. Eles compõem o pavimento para a ressurreição de Ch(X)ip(e) Totec(hno), são os degraus para a e-pifania prometida e já reservada pelos deuses. Cai a pele velha e carcomida, fica o brilho translúcido e leitoso, prestes a ser resguardado pela fusão inca-asteca.

Intergalactic, planetary, planetary, intergalactic.

Após os cinco anos que com certeza foram os piores anos da minha vida (quase cinco anos de desemprego e de freelas estúpidos que pagam pouco); indefinição profissional; namoros conturbados; a morte do meu pai; sumiço de amigos (com alguns deles se revelando perfeitos escrotos interesseiros), finalmente parece que as coisas estão se revertendo. Nada de concreto aconteceu ainda no plano profissional, mas tenho pela primeira vez a sensação de que, sim, caralho, vai acontecer. No plano pessoal, por outro lado, tudo aconteceu. Nas últimas semanas uma das pessoas mais importantes da minha vida apareceu quase que do nada, totalmente de surpresa, mudando tudo. Tudo. A mulher dos seus sonhos não aparece impunemente, you know.

Me sinto como uma cobra mudando de pele. Acabo de ter minha segunda epifania MDMA, desta vez acompanhado. Desfiz pseudo-sigilos e coisinhas escrotas que estavam atrapalhando a minha vida. E, finalmente, parei de dar atenção a situações e condições que não levam a nada, comezinhas que são. No processo, me desliguei de todas as listas de discussão que assinava na Internet, inclusive da minha própria lista (eh, eh, sim , isso é bizarro; ela deixa de se chamar hypervoid e passa a se chamar snoid, em homenagem ao clássico e querido personagem criado pelo Crumb. Quero mais Es, mais Pacha, mais plano físico e xamânico e menos Internet, menos Li(f)e e menos manés.

If They Move, Kill’ Em.

Ah, e parei de fumar, pondo fim a um hábito de quase 17 anos. O preço das cascas de pele de nicotina que caíram nesta mudança foi uma sucessão de chiliques e vacilos abstêmicos de dar medo a Christiane F, lançados injustamente sobre quem menos merecia (sorry, baby). Parece que não há expurgo sem erupção.

Os restos da pele antiga caem pelo caminho, descascados, multicores, como algas em pó. Eles compõem o pavimento para a ressurreição de Ch(X)ip(e) Totec(hno), são os degraus para a e-pifania prometida e já reservada pelos deuses. Cai a pele velha e carcomida, fica o brilho translúcido e leitoso, prestes a ser resguardado pela fusão inca-asteca.

Intergalactic, planetary, planetary, intergalactic.

Globber

Às vezes penso em transformar este Glob num glob fechado, não disponível para o público. Dentro dessa redoma blasé, o Glob viraria um mix entre um grimoire e um livro de sonhos molhados, elo perdido entre o sexo inca e a saudade soda cáustica.

Tssssss.

Mas não seria justo com os sete leitores que ainda acompanham essa trajetória trôpega de malabares gráficos, então só digo isso: desci para comprar chicletes agora por volta da meia-noite, já que os magníficos Trident sem açúcar são o pilar da minha abstinência tabagista deste mais de um mês sem fumar (sim, parei, após dezesseis anos de escravidão á Phillip Morris, à Souza Cruz e à estética naif do Zippo/John Constantine/Marlene Dietrich/Phillip Marlowe). Enquanto eu andava pelo meu derrubado bairro no início da madrugada, senti a cidade falando comigo. Não, cala a boca. É sério. Me senti “parte” dela.

Olhei para o céu e a Lua não estava em lugar algum. Que Hécate a guarde bem essa noite.

(E toca Planet Earth, Duran Duran, enquanto escrevo isso. Can you hear me nooooooooooww? This is planet Earth).

Às vezes penso em transformar este Glob num glob fechado, não disponível para o público. Dentro dessa redoma blasé, o Glob viraria um mix entre um grimoire e um livro de sonhos molhados, elo perdido entre o sexo inca e a saudade soda cáustica.

Tssssss.

Mas não seria justo com os sete leitores que ainda acompanham essa trajetória trôpega de malabares gráficos, então só digo isso: desci para comprar chicletes agora por volta da meia-noite, já que os magníficos Trident sem açúcar são o pilar da minha abstinência tabagista deste mais de um mês sem fumar (sim, parei, após dezesseis anos de escravidão á Phillip Morris, à Souza Cruz e à estética naif do Zippo/John Constantine/Marlene Dietrich/Phillip Marlowe). Enquanto eu andava pelo meu derrubado bairro no início da madrugada, senti a cidade falando comigo. Não, cala a boca. É sério. Me senti “parte” dela.

Olhei para o céu e a Lua não estava em lugar algum. Que Hécate a guarde bem essa noite.

(E toca Planet Earth, Duran Duran, enquanto escrevo isso. Can you hear me nooooooooooww? This is planet Earth).

Brazil

O Brasil tá se esforçando pra ficar parecido com o meio-oeste americano: conservador, babaca, overpowered e sem noção.

Acho que esse americanismo caipira tem aumentado, talvez por causa da TV a cabo. Tem muito mais gente imitando personagens de Sex and the City, as falas de Gilmore Girls, ou o comportamento de alguém do CSI, sei lá. Antes isso era meio restrito à Barra e a Alphaville, mas já é meio geral agora.

O comportamento dos nossos chefes, vizinhos, etc, tá totalmente Mr. Flanders. Uma mistura de neurose, babaquice, reacionarismo e ilusão de
que overpower e “bons costumes” são o mesmo que funcionalidade e democracia. A gente tá parecendo um Oklahoma do inferno.

Comportamentos bem americanos já são padrão por aqui: seus amigos somem quando vc tá mais na merda, desempregado, etc; seus amigos somem
quando vc tá meio rico, com grana pra se divertir, etc; só se pensa em trabalhar, trabalhar, sem nenhuma hora pra viver; não se pensa em
viver, aliás, só em trabalhar; o lazer é visto cada vez mais como coisa de vagabundo e algo nocivo e pernicioso; e tudo virou questão de
status: quanto vc ganha, o que vc faz, quem vc come, quem vc conhece, etc. Todos sinais de extremo wannabe america.

Tinham que imitar logo o pior, pô. Eu quero tirar uma sesta depois do almoço e ter tempo para viver, não só para trabalhar. Ir ao cinema, ir
a um museu, ler um livro, viajar de trem. Mas, diabos, adotamos as 3 principais culturas americanas: a cultura do trabalho protestante; a
cultura do status social e do marketing pessoal higher-than-thou; e a cultura do carro.

Na verdade, viver no Brasil tá foda.

O Brasil tá se esforçando pra ficar parecido com o meio-oeste americano: conservador, babaca, overpowered e sem noção.

Acho que esse americanismo caipira tem aumentado, talvez por causa da TV a cabo. Tem muito mais gente imitando personagens de Sex and the City, as falas de Gilmore Girls, ou o comportamento de alguém do CSI, sei lá. Antes isso era meio restrito à Barra e a Alphaville, mas já é meio geral agora.

O comportamento dos nossos chefes, vizinhos, etc, tá totalmente Mr. Flanders. Uma mistura de neurose, babaquice, reacionarismo e ilusão de
que overpower e “bons costumes” são o mesmo que funcionalidade e democracia. A gente tá parecendo um Oklahoma do inferno.

Comportamentos bem americanos já são padrão por aqui: seus amigos somem quando vc tá mais na merda, desempregado, etc; seus amigos somem
quando vc tá meio rico, com grana pra se divertir, etc; só se pensa em trabalhar, trabalhar, sem nenhuma hora pra viver; não se pensa em
viver, aliás, só em trabalhar; o lazer é visto cada vez mais como coisa de vagabundo e algo nocivo e pernicioso; e tudo virou questão de
status: quanto vc ganha, o que vc faz, quem vc come, quem vc conhece, etc. Todos sinais de extremo wannabe america.

Tinham que imitar logo o pior, pô. Eu quero tirar uma sesta depois do almoço e ter tempo para viver, não só para trabalhar. Ir ao cinema, ir
a um museu, ler um livro, viajar de trem. Mas, diabos, adotamos as 3 principais culturas americanas: a cultura do trabalho protestante; a
cultura do status social e do marketing pessoal higher-than-thou; e a cultura do carro.

Na verdade, viver no Brasil tá foda.

Mudando de pele

Acabo de descobrir que quase todos os meus 300 vinis foram destruídos, comidos por malditos cupins.

As capas foram destruídas. Sobraram os vinis, com restos de papel colados neles. Diabos, ficaram apenas um tempo dentro de uma caixa desde que eu me mudei, esperando um lugar na minha nova estante.

Pô, todos os discos que eu comprei dos meus 15 anos de idade até a invenção do CD.

Só consigo pensar no King Mob dizendo ao Mason Lang para se desapegar de suas coisas materias para não querer morrer de tristeza.

Eu quero um mundo sem insetos. Bichos de merda.

Acabo de descobrir que quase todos os meus 300 vinis foram destruídos, comidos por malditos cupins.

As capas foram destruídas. Sobraram os vinis, com restos de papel colados neles. Diabos, ficaram apenas um tempo dentro de uma caixa desde que eu me mudei, esperando um lugar na minha nova estante.

Pô, todos os discos que eu comprei dos meus 15 anos de idade até a invenção do CD.

Só consigo pensar no King Mob dizendo ao Mason Lang para se desapegar de suas coisas materias para não querer morrer de tristeza.

Eu quero um mundo sem insetos. Bichos de merda.

Show do Primal Scream

FODA.
Um dos melhores shows da minha vida. Pesado, dançante, sensacional. Para meia dúzia de gatos pingados.Parece que os manés chegaram todos tarde, para ver mesmo o Libertines (que, vou te falar, é ruim pra diabo). E, ao que parece, era mentira que tinham acabado os ingressos aqui. Acho até que sobraram muitos.
Som alto e até bem definido. Kevin Shields paradão num canto, shoegazer total. Mani alucinado e claramente feliz. E Bobby Gillespie, que é sensacional num palco.Ele pulava, se contorcia, ria de seus própios trejeitos Stones, perdia a voz, a recuperava. Foda. Praticamente o mesmo set list de São Paulo: maioria das músicas eram do Evil Heat e do XTRMNTR, com direito a uma versão sensacional de Accelerator, bateria eletrônica em Swastika Eyes e Kowalski, Movin On Up, cover de Kick Out The Jams no (único) bis (que, aliás, só rolou porque o pequeno público vaiou absurdamente a musiquinha do TIM Festival que entrava). Mas, no fim das contas, todo mundo chegou tarde só pra ver o Libertines. Fazer o quê? Melhor: só tava lá quem realmente gostava da banda.
No final da versão absurda de Kick Out the Jams, Bobbyzinho ainda joga o PEDESTAL do microfone para a platéia.
Um show fantástico e infelizmente curto (uma hora e quinze minutos), provavelmente porque o TIM Festival claramente armou essa noite pra ser dos Libertines (que, puta que pariu, são uma merda. Ê, bandinha ruim).

O mais engraçado foi ver uma meia dúzia de clubbers reclamando do Primal Scream: “Ai, tá pesado, ui”. Bundões.

Showzaço, lá no alto da minha lista ao lado dos shows do Orbital, PiL, Jesus & Mary Chain, Kraftwerk e Siouxsie & The Banshees. Melhor banda do mundo.

FODA.
Um dos melhores shows da minha vida. Pesado, dançante, sensacional. Para meia dúzia de gatos pingados.Parece que os manés chegaram todos tarde, para ver mesmo o Libertines (que, vou te falar, é ruim pra diabo). E, ao que parece, era mentira que tinham acabado os ingressos aqui. Acho até que sobraram muitos.
Som alto e até bem definido. Kevin Shields paradão num canto, shoegazer total. Mani alucinado e claramente feliz. E Bobby Gillespie, que é sensacional num palco.Ele pulava, se contorcia, ria de seus própios trejeitos Stones, perdia a voz, a recuperava. Foda. Praticamente o mesmo set list de São Paulo: maioria das músicas eram do Evil Heat e do XTRMNTR, com direito a uma versão sensacional de Accelerator, bateria eletrônica em Swastika Eyes e Kowalski, Movin On Up, cover de Kick Out The Jams no (único) bis (que, aliás, só rolou porque o pequeno público vaiou absurdamente a musiquinha do TIM Festival que entrava). Mas, no fim das contas, todo mundo chegou tarde só pra ver o Libertines. Fazer o quê? Melhor: só tava lá quem realmente gostava da banda.
No final da versão absurda de Kick Out the Jams, Bobbyzinho ainda joga o PEDESTAL do microfone para a platéia.
Um show fantástico e infelizmente curto (uma hora e quinze minutos), provavelmente porque o TIM Festival claramente armou essa noite pra ser dos Libertines (que, puta que pariu, são uma merda. Ê, bandinha ruim).

O mais engraçado foi ver uma meia dúzia de clubbers reclamando do Primal Scream: “Ai, tá pesado, ui”. Bundões.

Showzaço, lá no alto da minha lista ao lado dos shows do Orbital, PiL, Jesus & Mary Chain, Kraftwerk e Siouxsie & The Banshees. Melhor banda do mundo.

Musique Non Stop

O jornalismo carioca presta mais um desserviço à já ridicularizada cena underground na forma da matéria “Electro: A Tribo”, que saiu na capa de um tablóide carioca de programação na semana passada. Continuando a nossa tradição de uma cobertura cultural lamentável e ignorante, a matéria é apenas mais um tijolo na gigantesca parede-mosaico que ilustra a cretinice da cena eletrônica carioca. Vamos analisar aqui alguns pontos óbvios e flagrantes dessa longa história.

Antes de tudo, o que fica mais claro em toda essa relação entre o “underground” carioca – existe isso? – e a mídia mais careta e babaca é que as figuras que pensam em si mesmas como as mais ilustres do tal “underground” não titubeiam nem por um minuto antes de pagar a maior mico de suas vidas e posar como artefatos exóticos para a imprensa mais burra que o Rio de Janeiro já teve. O “underground” nunca quis tanto ser global. Lembro que, quando Wolf Maya estava dirigindo aquela novelinha que tinha um “núcleo” “clubber”, todos os modernóides cariocas se dirigiram aos bandos para os locais das filmagens, como pássaros mongolóides migrando para algum lugar. Se prestaram ao papel de ficar horas sem comer e beber em regiões inóspitas do planeta, como a Barra da Tijuca, para aparecer em uma novela. Belo comportamento underground.

E agora, como já aconteceu antes, se prestam de bom grado a aparecer de uma forma anódina e digna de Bozó em uma matéria de “comportamento” das mais absurdas (vamos chegar às matérias de “comportamento” mais para a frente). OK, vamos colocar algumas coisas claras: somente no Rio de Janeiro o “underground” quer ser global. Somente nesta cidade esquecida pelo bom gosto e pelo bom senso pessoas supostamente “de vanguarda” sorriem ao catar as migalhas que caem da câmera ou microfone mais próximo, sejam os da Vizoo ou, no outro extremo da idiotice midiática, da Globo.

Em Londres, onde surgiu, afinal, o objeto de que estamos falando aqui, o chamado “underground” não fica feliz em aparecer na capa dos tablóides de fofocas (aqueles que estampam manchetes como “David Beckham é na verdade um duende de sete cabeças” ou “Lady Di era uma extraterrestre lésbica”). Simplesmente porque: a) Tal tipo de divulgação não os ajudará em nada, já que eles não precisam de divulgação e b) Pessoas têm senso de ridículo. O fato de que você usa cílios postiços púrpura não quer dizer necessariamente que você está disposto a pagar qualquer King Kong para aparecer. Pelo contrário, deveria sugerir que você sabe fazer suas opções estéticas. Ah, e de qualquer forma, a imprensa careta britânica só se aproximaria dessas pessoas para fazer alguma matéria escandalosa anti-drogas.

Os afagos mútuos entre nossos “jornalistas” e (ouch) “colunistas” dos cadernos de “cultura” e as pessoas de várias cenas são bisonhos. De um lado, temos um bando de velhos que mal sabe do que estão falando ou escrevendo, mas parecem dispostos a “cobrir” qualquer tipo de comportamento que passe pelo Leblon para soar “descolados” e “antenados”. Do outro, temos participantes e freqüentadores de uma cena que mal entendem o que estão fazendo e, assim, acham que aparecer – ainda que de forma cretina e rasa – em qualquer fanzine disfarçado de jornal será algo “válido”. Sendo um ex-império, o Rio de janeiro mantém esse caráter autofágico, baseado em interrelações de classe e bairros que perpetuam a máquina da ignorância. Meia dúzia de mimadinhos entediados realmente acham que são os “tops” de alguma coisa qualquer e convencem algum mané jornalista que ouviu a vaca cantar e não sabe aonde (sim, porque nem descobriram que o galo existe ainda)

OK, para deixar uma coisa clara: eu não sou um destes palhaços que frequentam a Lapa e se acham de esquerda ou nacionalistas. As manifestações artísticas de que mais gosto não têm traços de cultura “nacional” ou de “contrapartida social” (coisas que só têm importância para quem não está interessado em arte). Mas uma cena – qualquer que seja – deve ter algum cérebro. Já está provado que 56% dos estudantes brasileiros não conseguem entender o que lêem. Agora imagine alguém assim lendo a Mixmag ou a Muzik e você terá uma noção da ponta do iceberg.

O resultado é uma cena que não sabe a que veio, para que veio e para onde vai. A música não importa, o que importa são as malditas munhequeiras e “ei, você sabe quem tem GHB pra vender?”. Uma cena cultural formada por vendedores de lojinhas de shopping, ignorante e semi-alfabetizada, que exatamente por isso se propõem a agir da forma mais globete possível. Basta uma olhada no site do club Egg, onde rola a festa Nag Nag Nag, ou uma lida em algum site decente sobre música para entender que o buraco é muito mais embaixo das munhequeiras Nike. Em Londres ou Nova York, o público já têm uma sofisticação que os faz entender que rótulos e enquadramentos só funcionam para matar alguma cena. Nenhum londrino decente gostaria de ser flagrado em público trajando exatamente o que lhe foi dito, como um maldito mórmon. Será que o fato de lerem algo e fazerem algo durante o dia faz alguma diferença? Afinal, quando você é um vendedor de loja ou um filho entediado você quer aparecer de qualquer forma.

Mas não estou generalizando: na cena carioca existem pessoas razoáveis, normalmente as que não aparecem nessas matérias. Uma coisa que me chamou a atenção foram os DJs falando que “é difícil tocar electro, não existe material suficiente”.

Alô?

Como assim? Isso acontece no Rio porque aqui os DJs só sabem mixar se tocarem a noite inteira coisas de um só selo. Lembro dos DJs de techno e house que ficavam a noite inteira na mesma lenga-lenga, porque “só tocavam techno alemão”. Não quero dizer que eles devam interromper o bom andamento do set para tocar reggae ou merda parecida, mas que parem de seguir os set lists e charts de DJs e gravadoras. Não é preciso tocar só coisas da International Gigolos pra fazer um set de electro – e muito menos de electroclash, embora esse termo tenha sido criado pelo próprio DJ Hell, da Gigolos. Como assim, existe pouco material? Sim, se você for contar apenas com os 18 vinis da International Gigolos que você tem, o material será pouco. Mas dizer que há pouco material é uma fabulosa demonstração de ignorância musical. Afrika Bambaataa, alguém? Kurtis Mantronik? Até mesmo um remix da Ruby? Depeche Mode remixado pela Andrea Parker? Sabem, o electro já existia antes dos Gigolos e de Miss Kittin. É só procurar e ler alguma coisa a mais do que os catálogos da Index.

Ah, não, mas aí não dá, porque é electrofunk, e não electroclash. Façam como um DJ de verdade e usem um sampler para mudar os beats e loops dessas coisas. Coloquem o maldito tecladinho vintage, com aquele arpeggiator no automático que o Human League tanto gostava. Enfim, sejam DJs. Comprando menos calças por mês, dá pra fazer isso. Ou então assumam que o conhecimento de vocês termina no último código de barras do catálogo da Gigolo Records. “Pouco material” é uma desculpa das mais risíveis.

O que me lembra a mico que aconteceu quando o Prodigy veio tocar aqui. Liam Howlett queria um DJ nacional de big beats para abrir o show dos caras. Desespero. Meu Deus, o que é esse tal de big beats? Se não estivessem tão ocupados folheando a The Face ou alguma outra revista cuja relevância morreu com o Culture Club, saberiam o que são os malditos big beats. As pessoas pensantes da cena ensinaram o DJ escolhido o que era, emprestaram discos de Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash ou sei lá o quê e assim se move a nossa “cena”.
Falo dos big beats porque eles ajudaram a renovar o electro “tradicional” entre os DJs. Figuras como Liam Howlett e Fatboy Slim – ao contrário dos nossos DJs de techno e house – não tocavam só techno e house a noite inteira, mas acrescentavam faixas de electro, funk setentista e breakbeats ao seu set. Diabos, os Chemical Brothers levantaram uma madrugada de Ibiza tocando “Billie Jean” do Michael Jackson! Essa mistura são os big beats. É sintomático que justamente um estilo que implique em misturas de gêneros crie problemas para os promoters de shows cariocas. Claro, temos DJs que seguem a cartilha, mixam o último kick de uma faixa de house com o primeiro kick de outra faixa de house e assim segue nossa vidinha.

Lembrando ainda que o tal electroclash que, coitado, acaba de se tornar a bola da vez nas bocas dos ignorantes da Lapa ao Baixo Gávea, é mais misturado ainda que o big beat. Não é só uma questão de misturar as batidas electro do Kraftwerk com os arpeggios vintage melódicos do Yazoo. A Nag Nag Nag toca electro, electrofunk, punk rock (sim, punk rock) e outras coisas. Dá pra tocar uma faixa de Adamski, Associates, Mantronix ou dos Sex Pistols e transformá-la, via mixagem com outros beats, em algo aproveitável electroclashisticamente.Mas para isso precisaríamos de DJs que gostassem de música e ouvissem algo além de electro em casa, e no Rio temos uns dois ou três que são assim. Afinal, é mais fácil baixar o set list da Gigolo e tentar achar os referidos vinis.

E se você a essa altura está pensando “esses caras são uns manés, viva o meu berimbau ou minha embolada de coco”, cale a boca. As cenas techno, house, punk, hip hop, electro, electroclash, etc do Brasil sempre pecaram pela falta de informação, pela vontade de ser global (em alguns casos) ou pela sub-cultura iletrada de shopping. Mas ao menos estão lidando com algo de relevância para suas vidas e para a situação atual da cultura pop. Dixer que “meu berimbau é mais sei lá o quê” é uma estupidez ainda mais ululante que achar que não existe electro além da Miss Kittin. Tá achando que berimbau é gaita?

Graças à ditadura militar, à criação pouco instrutiva dos pais dos anos 70 e à deficiência educacional brasileira, criou-se uma geração de velhos de 22 anos que é algo realmente triste. Pessoas que citam Chico Buarque em rodinhas de samba na Lapa ou acham que Caetano Veloso ainda é relevante. Pesoas que, em 2003, estão descobrindo bandas como Smiths e Cure, bandas que apareceram quando elas tinham cinco anos de idade, em 1985 (no caso do Cure, quando elas nem eram nascidas, em 1979). E, lançando mão dos pobres grupos de rock dos anos 80, acusam a cena eletrônica de ser “modernóide” ou algo do mesmo previsível gênero.

Mas acordem: quando estas bandas surgiram e tinham alguma importância estética, seus antepassados sociais (os manés fãs de rock progressivo e Scorpions, sei lá) diziam exatamente a mesma coisa: “Cure e Joy Division são bandas para essas pessoas metidas a modernas”. Ou seja, vocês estão sendo exatamente iguais aos fãs de electro que criticam, só que – pecado mortal – 15 anos depois, em relação a algo que surgiu quando vocês eram crianças. Então, calem a boca, velhos de 22 anos. Sim, é a nova geriatria. Daqui há 15 anos, estarão ouvindo electro.

Felizmente, entre jornalistas inadequados e ignorantes, uma fatia da cena voltada para a Globo e cafonices similares, DJs que não são DJs e jovens-velhos ripongas e atrasados de 22 anos, sobrevive a relevância da música eletrônica. Quem faz música não está interessado em capas de jornais cafonas, nem em que roupa o cara ali do lado está usando. Para ficar nos envolvidos no electro, tanto o electrofunk quanto o electroclash, Kraftwerk, Human League, Yello, Soul Sonic Force, Miss Kittin, The Hacker e The Experiment não estão interessados em descobrir se são parte ou não da tribo electro, da tribo house ou de alguma tribo do (da?) Xingu. O importante é fazer e não posar. Nos faria muito bem se parássemos de pensar em cadernos de sub-cultura, em jornais cafonas, em DJs sem talento e em top-vendedores de loja.

Suck my dick, lick my ass.

O jornalismo carioca presta mais um desserviço à já ridicularizada cena underground na forma da matéria “Electro: A Tribo”, que saiu na capa de um tablóide carioca de programação na semana passada. Continuando a nossa tradição de uma cobertura cultural lamentável e ignorante, a matéria é apenas mais um tijolo na gigantesca parede-mosaico que ilustra a cretinice da cena eletrônica carioca. Vamos analisar aqui alguns pontos óbvios e flagrantes dessa longa história.

Antes de tudo, o que fica mais claro em toda essa relação entre o “underground” carioca – existe isso? – e a mídia mais careta e babaca é que as figuras que pensam em si mesmas como as mais ilustres do tal “underground” não titubeiam nem por um minuto antes de pagar a maior mico de suas vidas e posar como artefatos exóticos para a imprensa mais burra que o Rio de Janeiro já teve. O “underground” nunca quis tanto ser global. Lembro que, quando Wolf Maya estava dirigindo aquela novelinha que tinha um “núcleo” “clubber”, todos os modernóides cariocas se dirigiram aos bandos para os locais das filmagens, como pássaros mongolóides migrando para algum lugar. Se prestaram ao papel de ficar horas sem comer e beber em regiões inóspitas do planeta, como a Barra da Tijuca, para aparecer em uma novela. Belo comportamento underground.

E agora, como já aconteceu antes, se prestam de bom grado a aparecer de uma forma anódina e digna de Bozó em uma matéria de “comportamento” das mais absurdas (vamos chegar às matérias de “comportamento” mais para a frente). OK, vamos colocar algumas coisas claras: somente no Rio de Janeiro o “underground” quer ser global. Somente nesta cidade esquecida pelo bom gosto e pelo bom senso pessoas supostamente “de vanguarda” sorriem ao catar as migalhas que caem da câmera ou microfone mais próximo, sejam os da Vizoo ou, no outro extremo da idiotice midiática, da Globo.

Em Londres, onde surgiu, afinal, o objeto de que estamos falando aqui, o chamado “underground” não fica feliz em aparecer na capa dos tablóides de fofocas (aqueles que estampam manchetes como “David Beckham é na verdade um duende de sete cabeças” ou “Lady Di era uma extraterrestre lésbica”). Simplesmente porque: a) Tal tipo de divulgação não os ajudará em nada, já que eles não precisam de divulgação e b) Pessoas têm senso de ridículo. O fato de que você usa cílios postiços púrpura não quer dizer necessariamente que você está disposto a pagar qualquer King Kong para aparecer. Pelo contrário, deveria sugerir que você sabe fazer suas opções estéticas. Ah, e de qualquer forma, a imprensa careta britânica só se aproximaria dessas pessoas para fazer alguma matéria escandalosa anti-drogas.

Os afagos mútuos entre nossos “jornalistas” e (ouch) “colunistas” dos cadernos de “cultura” e as pessoas de várias cenas são bisonhos. De um lado, temos um bando de velhos que mal sabe do que estão falando ou escrevendo, mas parecem dispostos a “cobrir” qualquer tipo de comportamento que passe pelo Leblon para soar “descolados” e “antenados”. Do outro, temos participantes e freqüentadores de uma cena que mal entendem o que estão fazendo e, assim, acham que aparecer – ainda que de forma cretina e rasa – em qualquer fanzine disfarçado de jornal será algo “válido”. Sendo um ex-império, o Rio de janeiro mantém esse caráter autofágico, baseado em interrelações de classe e bairros que perpetuam a máquina da ignorância. Meia dúzia de mimadinhos entediados realmente acham que são os “tops” de alguma coisa qualquer e convencem algum mané jornalista que ouviu a vaca cantar e não sabe aonde (sim, porque nem descobriram que o galo existe ainda)

OK, para deixar uma coisa clara: eu não sou um destes palhaços que frequentam a Lapa e se acham de esquerda ou nacionalistas. As manifestações artísticas de que mais gosto não têm traços de cultura “nacional” ou de “contrapartida social” (coisas que só têm importância para quem não está interessado em arte). Mas uma cena – qualquer que seja – deve ter algum cérebro. Já está provado que 56% dos estudantes brasileiros não conseguem entender o que lêem. Agora imagine alguém assim lendo a Mixmag ou a Muzik e você terá uma noção da ponta do iceberg.

O resultado é uma cena que não sabe a que veio, para que veio e para onde vai. A música não importa, o que importa são as malditas munhequeiras e “ei, você sabe quem tem GHB pra vender?”. Uma cena cultural formada por vendedores de lojinhas de shopping, ignorante e semi-alfabetizada, que exatamente por isso se propõem a agir da forma mais globete possível. Basta uma olhada no site do club Egg, onde rola a festa Nag Nag Nag, ou uma lida em algum site decente sobre música para entender que o buraco é muito mais embaixo das munhequeiras Nike. Em Londres ou Nova York, o público já têm uma sofisticação que os faz entender que rótulos e enquadramentos só funcionam para matar alguma cena. Nenhum londrino decente gostaria de ser flagrado em público trajando exatamente o que lhe foi dito, como um maldito mórmon. Será que o fato de lerem algo e fazerem algo durante o dia faz alguma diferença? Afinal, quando você é um vendedor de loja ou um filho entediado você quer aparecer de qualquer forma.

Mas não estou generalizando: na cena carioca existem pessoas razoáveis, normalmente as que não aparecem nessas matérias. Uma coisa que me chamou a atenção foram os DJs falando que “é difícil tocar electro, não existe material suficiente”.

Alô?

Como assim? Isso acontece no Rio porque aqui os DJs só sabem mixar se tocarem a noite inteira coisas de um só selo. Lembro dos DJs de techno e house que ficavam a noite inteira na mesma lenga-lenga, porque “só tocavam techno alemão”. Não quero dizer que eles devam interromper o bom andamento do set para tocar reggae ou merda parecida, mas que parem de seguir os set lists e charts de DJs e gravadoras. Não é preciso tocar só coisas da International Gigolos pra fazer um set de electro – e muito menos de electroclash, embora esse termo tenha sido criado pelo próprio DJ Hell, da Gigolos. Como assim, existe pouco material? Sim, se você for contar apenas com os 18 vinis da International Gigolos que você tem, o material será pouco. Mas dizer que há pouco material é uma fabulosa demonstração de ignorância musical. Afrika Bambaataa, alguém? Kurtis Mantronik? Até mesmo um remix da Ruby? Depeche Mode remixado pela Andrea Parker? Sabem, o electro já existia antes dos Gigolos e de Miss Kittin. É só procurar e ler alguma coisa a mais do que os catálogos da Index.

Ah, não, mas aí não dá, porque é electrofunk, e não electroclash. Façam como um DJ de verdade e usem um sampler para mudar os beats e loops dessas coisas. Coloquem o maldito tecladinho vintage, com aquele arpeggiator no automático que o Human League tanto gostava. Enfim, sejam DJs. Comprando menos calças por mês, dá pra fazer isso. Ou então assumam que o conhecimento de vocês termina no último código de barras do catálogo da Gigolo Records. “Pouco material” é uma desculpa das mais risíveis.

O que me lembra a mico que aconteceu quando o Prodigy veio tocar aqui. Liam Howlett queria um DJ nacional de big beats para abrir o show dos caras. Desespero. Meu Deus, o que é esse tal de big beats? Se não estivessem tão ocupados folheando a The Face ou alguma outra revista cuja relevância morreu com o Culture Club, saberiam o que são os malditos big beats. As pessoas pensantes da cena ensinaram o DJ escolhido o que era, emprestaram discos de Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash ou sei lá o quê e assim se move a nossa “cena”.
Falo dos big beats porque eles ajudaram a renovar o electro “tradicional” entre os DJs. Figuras como Liam Howlett e Fatboy Slim – ao contrário dos nossos DJs de techno e house – não tocavam só techno e house a noite inteira, mas acrescentavam faixas de electro, funk setentista e breakbeats ao seu set. Diabos, os Chemical Brothers levantaram uma madrugada de Ibiza tocando “Billie Jean” do Michael Jackson! Essa mistura são os big beats. É sintomático que justamente um estilo que implique em misturas de gêneros crie problemas para os promoters de shows cariocas. Claro, temos DJs que seguem a cartilha, mixam o último kick de uma faixa de house com o primeiro kick de outra faixa de house e assim segue nossa vidinha.

Lembrando ainda que o tal electroclash que, coitado, acaba de se tornar a bola da vez nas bocas dos ignorantes da Lapa ao Baixo Gávea, é mais misturado ainda que o big beat. Não é só uma questão de misturar as batidas electro do Kraftwerk com os arpeggios vintage melódicos do Yazoo. A Nag Nag Nag toca electro, electrofunk, punk rock (sim, punk rock) e outras coisas. Dá pra tocar uma faixa de Adamski, Associates, Mantronix ou dos Sex Pistols e transformá-la, via mixagem com outros beats, em algo aproveitável electroclashisticamente.Mas para isso precisaríamos de DJs que gostassem de música e ouvissem algo além de electro em casa, e no Rio temos uns dois ou três que são assim. Afinal, é mais fácil baixar o set list da Gigolo e tentar achar os referidos vinis.

E se você a essa altura está pensando “esses caras são uns manés, viva o meu berimbau ou minha embolada de coco”, cale a boca. As cenas techno, house, punk, hip hop, electro, electroclash, etc do Brasil sempre pecaram pela falta de informação, pela vontade de ser global (em alguns casos) ou pela sub-cultura iletrada de shopping. Mas ao menos estão lidando com algo de relevância para suas vidas e para a situação atual da cultura pop. Dixer que “meu berimbau é mais sei lá o quê” é uma estupidez ainda mais ululante que achar que não existe electro além da Miss Kittin. Tá achando que berimbau é gaita?

Graças à ditadura militar, à criação pouco instrutiva dos pais dos anos 70 e à deficiência educacional brasileira, criou-se uma geração de velhos de 22 anos que é algo realmente triste. Pessoas que citam Chico Buarque em rodinhas de samba na Lapa ou acham que Caetano Veloso ainda é relevante. Pesoas que, em 2003, estão descobrindo bandas como Smiths e Cure, bandas que apareceram quando elas tinham cinco anos de idade, em 1985 (no caso do Cure, quando elas nem eram nascidas, em 1979). E, lançando mão dos pobres grupos de rock dos anos 80, acusam a cena eletrônica de ser “modernóide” ou algo do mesmo previsível gênero.

Mas acordem: quando estas bandas surgiram e tinham alguma importância estética, seus antepassados sociais (os manés fãs de rock progressivo e Scorpions, sei lá) diziam exatamente a mesma coisa: “Cure e Joy Division são bandas para essas pessoas metidas a modernas”. Ou seja, vocês estão sendo exatamente iguais aos fãs de electro que criticam, só que – pecado mortal – 15 anos depois, em relação a algo que surgiu quando vocês eram crianças. Então, calem a boca, velhos de 22 anos. Sim, é a nova geriatria. Daqui há 15 anos, estarão ouvindo electro.

Felizmente, entre jornalistas inadequados e ignorantes, uma fatia da cena voltada para a Globo e cafonices similares, DJs que não são DJs e jovens-velhos ripongas e atrasados de 22 anos, sobrevive a relevância da música eletrônica. Quem faz música não está interessado em capas de jornais cafonas, nem em que roupa o cara ali do lado está usando. Para ficar nos envolvidos no electro, tanto o electrofunk quanto o electroclash, Kraftwerk, Human League, Yello, Soul Sonic Force, Miss Kittin, The Hacker e The Experiment não estão interessados em descobrir se são parte ou não da tribo electro, da tribo house ou de alguma tribo do (da?) Xingu. O importante é fazer e não posar. Nos faria muito bem se parássemos de pensar em cadernos de sub-cultura, em jornais cafonas, em DJs sem talento e em top-vendedores de loja.

Suck my dick, lick my ass.